Crônicas de Tagmar – Volume 2: O Medalhão de Prata

Publicado: 05/01/2012 por Dmitri Gadelha em Contos, Tagmar
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Olá, amigos! O mestre Alan Imiril atacou de novo! Como membro do Projeto Tagmar 2, nosso incansável camarada produz ativamente material para o primeiro RPG nacional já há algum tempo, tendo contribuído na escrita de livros, materiais online e também na organização do recente evento Tagmar 20 Anos, que ocorreu Brasil afora – e inclusive contou com o nosso apoio incondicional aqui em Fortaleza, clique AQUI para ver como foi.

Bem, dessa vez Imiril escreveu um conto situado no mundo de Tagmar, para a coletânea Crônicas de Tagmar Volume 2, que é aberta a contribuições de quem se habilitar! Para saber mais sobre esse projeto, clique AQUI. O enredo do conto gira em torno da busca de um pequenino gatuno Semeão pelo misterioso artefato conhecido apenas como Medalhão de Prata. No entanto, quando a jornada do pequenino se torna cada vez mais complicada, ele perceberá que entrou em uma demanda mais sombria do que parece…

Enfim, sem mais delongas, aproveitem o texto do mestre Imiril na íntegra, diretamente do site do Projeto Tagmar 2:

O MEDALHÃO DE PRATA

de Alan Imiril

Simeão bebeu o último gole da sétima caneca de cerveja que tomava aquele dia. Costumava se orgulhar e contar vantagem da incrível capacidade de resistir à embriaguez. Também pudera; para um “pequenino” ele realmente resistia incrivelmente aos efeitos do álcool. Podia beber por horas a fio e ainda manter-se plenamente consciente. “Benefícios de ser filho de um grande cervejeiro”, dizia orgulhoso, quando finalmente ficava “de pileque”. Mas não era o caso hoje, ainda. Quando o humano ruivo e alto, extremamente magro e com cara de patife aproximou-se da mesa ajeitando um desses “mantos de bruxo” antes de sentar-se, Simeão ainda estava bem sóbrio e atento.

- Ouvi por ai que você é um grande ladrão. Disse, sem nenhum rodeio, o tal bruxo. Simeão gostava disso.

- “Grande” não é o termo exatamente apropriado em se tratando de um pequenino… mas, sim, sou realmente muito bom no que faço. – retrucou Simeão com voz quase infantil.

- Tenho um serviço para você. – O mago jogou um saquinho sobre a mesa. O som que se propagou chegou como música aos ouvidos apurados de Simeão: moedas, o bastante pelo volume. Numa fração de segundo o saquinho sumiu de cima da mesa para reaparecer nas mãos de Simeão. Dedos hábeis conferiram o conteúdo e fecharam o saquinho novamente.

- Do que precisa, senhor…

- Edreanor – completou o bruxo. – Preciso que recupere um artefato que foi roubado de mim. Um medalhão. De ouro. Preso numa corrente de prata.

O taberneiro, um sujeito tão grande quanto gordo que atendia pelo nome singular de Pancada, aproximou-se a um sinal de Simeão e, prestativo, encheu-lhe novamente a caneca.

- Bom, mestre Edreanor, e onde posso encontrar esse ratinho? Simeão perguntou enquanto dava um belo gole na caneca de cerveja.

- Ele está acomodado num barco. O Rainha. Está ancorado aqui na cidade até esta noite. Amanhã eles partem com destino a Diam, em Eredra. E de lá para o Fim-do-Mundo.

- Hum… o Rainha, não? É um navio afamado, sua tripulação é experiente e seu capitão é reconhecido em muitas águas. Não se envolve com um grupo desses por pouco, mestre Edreanor.

- O sujeito que me roubou não faz parte da tripulação do Rainha. Pagou para embarcar e ir até Dantsem, onde vai desfazer-se do meu medalhão. Além do mais a tripulação do Rainha está quase toda em terra hoje. E, caso aceite o serviço, outras duas sacolinhas dessa estarão à sua espera amanhã.

Simeão brincou com uma das moedas entre os dedos.

- Qual o nome do sujeito? – Perguntou.

- Lucius. – Respondeu o outro.

***

Se alguém perguntasse a que horas Simeão deixou a taberna ninguém saberia dizer, e a maioria teria dificuldade até de lembrar-se se ele esteve lá. Tinha essa capacidade de passar quase despercebido mesmo que não quisesse. Horas mais tarde, ainda aquela noite, estava descendo pelas vielas escuras e tortuosas de Quessedir. O cheiro da maresia vinha acompanhado com o odor acre de peixe fresco. A noite era de lua cheia e o caminho estava iluminado com aquela aura azulada que provoca arrepios nas criaturas diurnas. O vento frio soprava forte, soerguia o manto escuro de Simeão e deixava à mostra a bainha da espada curta com cabo de prata presa em sua cintura. Essa arma era a única coisa na vida da qual Simeão realmente gostava. Não apenas pelo fato de ser uma arma excepcional, mas havia sido dada por um amigo muito querido que, há anos, já havia partido para o seio de Cruine, o deus impiedoso da morte que jamais inocenta o culpado ou retarda seu julgamento.

O píer estava iluminado por lamparinas a óleo que ficavam infestadas de mariposas e outros insetos voadores à procura de calor. Grupos de marujos se empertigavam contra o frio jogando conversa fora ou cuidando do embarque e desembarque de mercadorias. Algumas de origem duvidosa.

O pequenino movia-se como o vento. A capa negra e a baixa estatura tornando-o pouco mais que a sombra de um gato entre os caixotes. Minutos mais tarde a figura de um barco grande e poderoso oscilava nas águas à sua frente. O Rainha havia sido recém-reformado e apresentava-se, de fato, como uma rainha dos mares. Havia apenas um vigia no convés e outro no cais guardando a prancha de acesso. Simeão jogou uma pequena pedra à esquerda do marujo fazendo-o virar, no espaço de tempo de uma piscadela a lâmina curva da espada curta de Simeão cruzou o espaço até o pescoço do pobre marinheiro onde se enterrou até destruir sua medula. Ele morreu silenciosamente. Amparado pelo pequenino o corpo permaneceu de pé. Simeão encostou-o com cuidado à amurada do píer e assegurou-se que ele permanecesse de pé apoiado por um bordão de madeira.

A distância até o convés passando pela prancha foi vencida rápida e silenciosamente. Só quando alcançou a proa foi visto pela sentinela. Este sacou e ergueu habilmente um rapier de piratas desferindo um golpe de ponta contra o pequenino. Simeão gingou o corpo para a direita e seu braço esquerdo subiu num ângulo certeiro rumo à jugular do marujo. A lâmina fria e mortal de Simeão bebia o sangue de mais uma vítima. Caso alguém olhasse de perto acharia estranho, pois os ferimentos deixados pela espada curva de Simeão não sangravam, pareciam intumescer e embolorar quase imediatamente, adquirindo uma aparência infecciosa e podre.

Desceu em direção às cabinas. No caminho teve de esgueirar-se entre uma dezena de marujos que dormiam em redes e colchões improvisados na parte inferior da proa para chegar até as acomodações dos passageiros. Teve sorte. Só uma das cabines estava ocupada. Abriu a porta lentamente… dentro um elfo magro e negro como uma sombra noturna estava arqueado sobre outro. No momento Simeão diagnosticou apenas duas coisas: primeira, o outro sujeito estava morto, segunda, o homem negro estava com o tal medalhão numa das mãos. Simeão soltou uma praga e venceu rapidamente a distância que o separava do seu novo alvo, mas não foi rápido o suficiente. O elfo negro deu um passo atrás e desapareceu. Abraçado pelas trevas foi levado para outro lugar por um desses sortilégios malditos que os magos possuem. Simeão lamentou não ter sido hábil o suficiente, mas não lamentou tanto quanto sua falta de percepção para ver que o outro homem não estava realmente morto. Quando percebeu seu erro o sujeito estava contorcendo-se, ficando cada vez maior, pelos, presas e garras tomaram forma. Sua cabeça deu lugar ao crânio de um grande lobo castanho. Simeão amaldiçoou sua sorte naquela noite e preparou-se para o pior: teria que enfrentar um maldito tessaldariano.

A criatura olhou para o pequenino com fogo nos olhos. Um único movimento seu e as garras afiadas e mortais rasgaram a armadura leve e a carne de Simeão. As chances contra o lobisomem eram ruins. Simeão rolou sob as pernas do seu oponente e usou a escrivaninha como apoio para saltar sobre as costas do lobo. Puxou os pelos da cabeçorra do bicho para trás e com um movimento rápido da sua lâmina vazou um dos olhos da fera. No instante seguinte foi arremessado contra a mobília, destruindo-a em centenas de pedaços. O tessaldariano arremeteu contra o pequenino como um lobo avança sobre a lebre, seu ímpeto, porém, foi sua desgraça. Desequilibrou-se quando avançou e quase caiu, Simeão moveu rápido sua lâmina e na ferocidade de abocanhar a presa o lobisomem fechou sua bocarra sobre a espada curva encantada. A lâmina penetrou fundo no crânio do lobo e com um movimento rápido e preciso arrancou-lhe fora a cabeça.

Simeão, ainda tonto, olhou para uma dezena de piratas que invadiam a cabine agora. Não havia saída alguma no aposento exceto uma pequena janela, estreita demais para um homem passar. Sim, para um homem, mas não para um pequenino. Simeão saltou pela janela estilhaçando o vidro e as dobradiças. Caiu sobre o píer dando graças de estar do lado certo do barco, pois apenas depois do salto lembrou que nadar não estava entre suas vastas habilidades. Em seguida correu até encontrar a segurança dos becos escuros e úmidos.

Esta tinha sido uma noite realmente difícil, e ainda demoraria a terminar, pois agora – refletindo com clareza sobre a situação – pensou que poderia ainda encontrar o medalhão. Afinal, quantos elfos sombrios pode haver em Quessedir?

Aquela era uma cidade portuária. Muitos vinham ali com o desejo de passar despercebidos, mas quase nenhum conseguia. O porto de Quessedir era governado por habilidosas guildas de ladinos e nada fugia aos olhos atentos daqueles gatunos.

Simeão cobrou alguns favores e descobriu sem muita dificuldade onde poderia encontrar o elfo negro. Os “camaradas” davam notícia que o estrangeiro de pele exótica havia se refugiado em Porto Velho. Uma região repleta de prédios e galpões que foram destruídos por uma violenta cheia da maré anos antes. O poder das ondas devastou a enseada e o porto nunca mais pode ser reconstruído. Toda área comercial faliu e transformou-se num reduto de vilões e outros párias sociais. Agora o distrito do Porto Velho, em Quessedir, figurava como um dos piores e mais perigosos lugares para se viver de todo Tagmar.

Cerca de uma hora depois do incidente no Rainha Simeão cruzava as ruas repletas de viciados e prostitutas do Velho Porto. Conhecia a fama dos elfos negros e já ouvira falar sobre eles muitas vezes: feiticeiros poderosos, argutos, megalomaníacos, xenófobos e, sobretudo, requintados e perfeccionistas. Sendo assim, não haveria em Porto Velho praticamente nenhum lugar que pudesse abrigar hóspede tão ilustre, exceto um.

A Casa das Fadas era um prostíbulo de classe e muito requinte. Sua proprietária, diziam, era um demônio do prazer e da arte de seduzir. Contavam também que a própria Fulvina, Senhora dos Prazeres, seria sua cliente habitual. Simeão conhecia a Srta. Penélope, uma “moça” de pelo menos quarenta anos que nunca havia casado. Senhora de um corpo – e um fogo – que matava de inveja muitas donzelas da corte de vários reinos, onde as maravilhas da Casa das Fadas eram contadas à boca pequena. Dessas maravilhas a mais conhecida era o boato que garantia existir ali prostitutas de todas as raças do Mundo Conhecido e de mais além. O próprio Simeão – que não era cliente assíduo – já vira na casa elfas, pequeninas e até mesmo uma fêmea orco, que diziam ser muito solicitada…

Quando chegou foi muito bem recebido, como todos que vão naquele lugar. Ofereceram-lhe mesa no salão luxuoso, um bom vinho tinto e uma travessa com cubinhos de queijo provolone, rodelas de salame, palmito de açaí e azeitonas. Minutos depois Simeão escolheu uma jovem meio-elfa de aspecto perspicaz e inteligente e foi para um quarto. Hora e meia depois a jovem embriagada, e bem motivada com dez moedas, contou o que sabia sobre o estranho elfo com pele de ébano que havia passado umas noite ali. Feliz Simeão deixou a Casa das Fadas rumo a um dos lugares mais perigosos de Quessedir.

O Cais Negro. O elfo sombrio deveria ter muito dinheiro e influência. A existência desse cais era um mito. Sua localização era um segredo de morte reservado a um punhado de ladinos em Quessedir e Simeão, felizmente, era um deles.

Não demorou muito para chegar ao local. O cais ficava na área do porto onde a cheia devastara com mais força. Ali haviam reconstruído um velho píer que embora não permitisse a barcos de grande porte atracar, pequenos botes e balças podiam ser carregados com produtos dos mais diversos tipos e levados para alto mar onde eram acolhidos por embarcações maiores. Tal estratagema não era adequado a comerciantes idôneos, mas servia muito bem a toda sorte de operações clandestinas e ilegais.

O produto do mercado negro sempre embarcava no cais uma vez por mês, quando a lua cheia estava em seu auge. Para assegurar a segurança do negócio os ladinos, além de capangas armados, dispunham de um artifício muito mais poderoso e criativo: a crendice popular. Histórias devidamente semeadas de fantasmas, tessaldarianos sedentos de sangue e outros monstros terríveis e malignos permeavam toda região. É verdade que tal fama trouxe ao lugar, por vezes, grupos incautos de aventureiros. Contudo, os tais ou eram afugentados ou eliminados pelos vilões do local.

A sorte, ou destino, era que Simeão sabia de tudo isso, uma vez que boa parte havia sido planejada por ele mesmo. De fato ser um membro sênior da maior guilda de ladrões de Quessedir às vezes mostrava ter algum valor. Assim, quando chegasse ao cais esperava encontrar o elfo sombrio devidamente preso e amordaço pelos sócios da guilda, avisados previamente do caso por um pombo correio enviado por Simeão e motivados pela promessa de boa recompensa. Porém, o quadro que encontrou era bem oposto: dos quatro capangas que enviou, três já estavam mortos e o elfo preparava-se para eliminar o último, no entanto, quando viu Simeão chegar mudou rapidamente de estratégia.

O sombrio sibilou palavras estranhas no seu misterioso idioma e submeteu o capanga totalmente à sua vontade. O tal, com uma fúria incontrolável, avançou para atacar o pequenino. Simeão chegou a ter pena do infeliz, se aquele coitado estivesse no total controle de seus atributos mentais jamais teria atacado Simeão, Lâmina Veloz, daquela maneira. Com uma esquiva e um rápido movimento de sua espada o pequenino derrubou seu oponente.

O plano do elfo quase funcionou. O instante em que Simeão distraiu-se com o capanga ele aproveitou para chegar ao bote e iniciar sua fuga. Mas além de ágil Simeão era muito perspicaz e já viajara o suficiente pelo Mundo Conhecido para saber um pouco sobre magos e seus truques. O elfo sombrio em questão, por exemplo, não poderia ter enfrentado o tessaldariano no barco, então devia ter usado um feitiço de sono, por isso Simeão tomou-o por morto; depois fugiu usando uma mágica de teleporte ao invés de enfrentar uma luta contra o pequenino; agora os capangas mortos haviam sido abatidos por alguém com uma espada e o elfo não tinha uma, portanto deviam ter sido mortos pelo mesmo capanga que lhe atacou. Magos… Simeão considerava quase todos uns estúpidos metidos a intelectuais, mas aquele elfo certamente era um dos mais capazes que ele já encontrara.

O elfo sombrio vendo sua marionete cair facilmente aos pés do pequenino entendeu, finalmente, que seu oponente não era um ladrão vulgar e decidiu lançar sua última e mais feroz cartada. O mago tomou nas mãos três frascos de vidro belíssimos preenchidos com um líquido que lembrava vinho tinto. Jogou-os ao chão da embarcação estilhaçando os refinados itens e espalhando o conteúdo pelo assoalho, em seguida tomou nas mãos uma adaga ritual com cabo e lâmina trabalhados e com ela fez um profundo corte no peito. O sangue jorrou em abundância e quando atingiu o chão misturou-se com o estranho líquido dos frascos. O mago negro gritou de dor e caiu de joelhos no barco à beira da inconsciência. No entanto, da poça de sangue à sua frente três formas humanóides começaram a contorcer-se e ganhar forma, em poucos instantes tinham dado origem a três elfos negros idênticos ao mago sombrio que as havia invocado. Os sósias olharam para Simeão com os olhos cheios de ódio e malícia e prepararam-se para o enfrentamento.

Os novos inimigos levitaram suavemente do barco até o cais e pararam em volta de Simeão. O pequenino, surpreso com a habilidade do mago sombrio, começava a imaginar se poderia dar conta dos três sósias. Tivesse cada um deles pelo menos um terço do poder original do elfo negro seriam um inimigo formidável. Simeão avaliou suas possibilidades: fugir seria agora quase impossível visto que estava cercado, enfrentar os três bruxos era a única possibilidade, porém precisaria de muita sorte para vencer tal embate. Derrubar os adversários não seria problema, mas não podia vencer os três duma vez e temia qual feitiço maldito eles pudessem lançar contra ele.

De qualquer forma não havia mais tempo para bolar estratégias. Um dos bruxos ergueu os braços e começou a conjurar uma magia. Simeão, muitas vezes mais rápido que o oponente, escolheu esse como primeiro alvo. Lançou-se rápida e furiosamente em direção ao conjurador e sua lâmina encontrou o peito aberto do adversário destruindo com facilidade o coração negro de sua vítima. Quando virou o pequenino escutou o poderoso ribombar do trovão e o raio mágico conjurado pelo segundo sósia o atingiu em cheio lançando-o a vários passos dali. Ainda tondo de dor ergueu os olhos a tempo de ver a mais famosa magia arcana voar furiosamente em sua direção. A bola flamejante cresceu nas mãos do terceiro bruxo negro maior que qualquer outra peripécia semelhante que Simeão tivesse visto na vida. Em instantes ele estaria perdido para sempre. Quando aquela magia estourasse pouco restaria dele para contar história, ou mesmo do píer onde estava. Ele cerrou os olhos e não lamentou outra coisa senão que talvez fosse sentir falta da cerveja do porto.

Ouviu-se um estrepitoso som. As águas cresceram numa gigantesca torrente e dispararam na direção dos bruxos sufocando a imensa bola de chamas e arrastando os elfos negros pelo píer aos trambolhões. Simeão voltou-se incrédulo a tempo de ver o mago Edreanor passar correndo.

- Levante-se; ainda não os derrotamos! Falou ele ao postar-se ao lado do boquiaberto pequenino.

Simeão riu da sua grande sorte e levantou-se a tempo de ver um dos bruxos ser arrastado pelas águas evocadas por Edreanor e cair em meio às águas revoltosas do cais. O último bruxo, aturdido e desesperado, levantou-se para encarar seu novo oponente. Estava claro que não poderia enfrentar o habilidoso ladino e um mago Elemental de capacidade tão ímpar quanto esse que era capaz de mover tão gigantesca quantidade de água. Mas o sósia do elfo sombrio tinha as exatas inteligência e percepção de seu criador e sabia que a fuga de seu mestre era sobremodo mais importante que sua própria vida. Sendo assim, ponderou sobre seu próximo passo e então, obstinado e temerário, mesmo que significasse sua morte, lançou seu último e mais cruel encanto.

Ao perceber o elfo negro preparar-se para mais uma magia Simeão avançou com rapidez mortal contra seu inimigo. Edreanor afastou seus mantos e passou ele mesmo a preparar sua contra mágica. O pequenino atacou veloz, mas não conseguiu derrubar seu oponente antes que ele terminasse seu encanto. De joelhos e prostrado no chão o sósia, apesar de ferido mortalmente, sorria contente, pois percebera que sua maldição fora bem sucedida. Simeão, sem entender a razão do estranho contentamento do elfo moribundo, olhou para trás e assim que viu a forma magra e humana de Edreanor contorcer-se de dor e loucura compreendeu que agira tarde demais e algo terrível aconteceria.

Edreanor lutou com todas as forças, debateu-se, urrou em desespero. Sabia que tipo de mal o elfo sombrio evocara sobre ele, mas nada pode fazer. Impotente contemplou cheio de dor e angústia o mundo ao seu redor tornar-se preto e branco, os odores do cais penetrarem suas narinas com tons e sensações milhares de vezes ampliadas. Estava perdido.

O pequenino aproximou-se com cuidado e descrença do lugar onde Edreanor estivera. Não tivesse o fato ocorrido bem debaixo dos seus olhos jamais acreditaria, mas ali estava agora um pequeno gato negro de olhos grandes, verdes e cheios de perspicácia e inteligência.

Num átimo Simeão lembrou-se contra quem, de fato, lutavam. Praguejando correu até a ponta do píer e tentou divisar onde o elfo negro estava, temendo que ele já estivesse longe demais para ser alcançado, mas não acontecera assim. A magia que conjurara os sósias cobrou seu preço do elfo sombrio. Com a morte de seus asseclas o bruxo negro jazia indefeso e totalmente esgotado dentro do bote em que embarcara.

Simeão usou uma corda para trazer o inimigo ao cais e agarrando-o pelo colarinho tomou-lhe o estranho medalhão. Sufocando em seu próprio sangue com olhos injetados de ódio e maldição o elfo sombrio disse apenas um frase antes de morrer:

- Eles vão achar você e então pagará caro por essa afronta…

Simeão sabia que deveria voltar para a cidade e tentar desfazer-se da jóia o quanto antes. Um artefato suficientemente precioso para arrancar um elfo sombrio do seu reino negro a milhares de quilômetros dali devia, certamente, conseguir um bom preço se vendido à pessoa certa. Mas sua intuição lhe dizia que aquele medalhão não devia voltar para as mãos de qualquer feiticeiro que fosse, e boa parte de ser um ladino consistia em dar ouvidos à sua intuição, coisa que ele aprendera desde muito cedo. De qualquer maneira, sabia que agora precisaria sumir de Quessedir por um tempo.

Assim, Simeão trocou de roupas com um dos capangas mortos, que também era um pequenino, e jogou-o na água, sabia que os peixes se encarregariam de dificultar, ou mesmo – com um pouco de sorte – impedir a identificação do cadáver, depois amarrou os pés do elfo negro à âncora do bote e deixou-o afundar nas águas escuras do porto. Se funcionasse como ele imaginava todos passariam bom tempo imaginando que o elfo matara todos os ladinos e conseguira fugir. Por fim, tomou o bote e o gato e partiu ao encontro do barco pirata que estaria ancorado ali perto. Dentro de alguns dias chegaria a Portis e, uma vez ali, encontraria um grupo de amigos que poderiam ajudá-lo a descobrir que segredos aquele estranho medalhão de prata escondia.

Poucas horas depois Simeão, a bordo de um veloz barco pirata, com um belo sorriso no rosto e uma caneca da boa cerveja do porto na mão, viajava tranquilo e feliz ao sabor do vento. Aos seus pés um estranho gato negro de olhos verdes ronronava ao sabor da brisa. Naquele momento eles pouco sabiam sobre o precioso objeto que levavam consigo ou todo o poder destruidor que ele guardava.

***

Ainda há tempo de participar com o seu conto!

Bem, meus camaradas, espero que tenham apreciado a leitura tanto quanto nós do grupo Vila do RPG ficamos orgulhosos em ver a produção do mestre Imiril no Projeto Tagmar 2. Até a próxima!

Dmitri Gadelha

Conhecendo um pouco melhor o universo de Tagmar… e curtindo!

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Comentários
  1. Thiago Samyaza disse:

    Não há o que dizer, como as obras do mestre Alan sempre são: majestosas!
    Admiro e invejo esse filha-da-mãe!

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