RPG e Educação – Literatura e História

Orientações de como utilizar a história e a literatura na construção de atividades lúdicas e pedagógicas tendo como ferramenta principal o RPG

Anteriormente, citamos de forma bastante abrangente, uma abordagem generalizada sobre como o RPG pode ser usado como ferramenta pedagógica. No referido artigo, visualizamos de forma universal os aspectos que podem ser explorados no processo de educação. Neste novo artigo sobre o assunto, começaremos a adentrar nas características práticas e nos recursos envolvidos no processo de criação deste elo entre o lúdico e o cognitivo. Neste primeiro momento, vamos enumerar as condições para a busca por recursos para explorar os aspectos históricos, literários, sociais, dentre outros de igual relevância e que serão vislumbrados com mais detalhes adiante.

Para ser eficiente, quem pretende explorar este ramo dos jogos de interpretação como recurso educacional deve ter em mente os objetivos que busca alcançar. Avaliar isto, antes de começar a elaborar as atividades, se revela de suma importância, especialmente para se ter referências de livros, músicas ou filmes que podem ser explorados em sua atividade planejada. Ser um mediador em um exercício como este, exige o dobro de trabalho que seria preciso, sem o objetivo do aprendizado estar envolvido. Isto porque quem esta a frente da apresentação, deve anteriormente, avaliar quais os aspectos que devem ser mais explorados e como os elementos inseridos na aventura narrada contribuirão para o conhecimento dos alunos. O que eles irão absorver de todo este processo? Com isso em mente, a elaboração do trabalho se torna bem mais fácil e prático. É importante enaltecer isso, pois o RPG possui centenas de possibilidades e não é difícil perder o rumo de um enredo quando não se tem um horizonte a ser alcançado.

Processo de Criação

Vamos exemplificar estas afirmativas, através do jogo O Desafio dos Bandeirantes, de Luiz Eduardo Rincon (Devir Editora). Para uma abordagem histórico-literária, impossível pensar em uma ambientação melhor e mais indicada ao ensino das referidas disciplinas escolares. Ainda mais quando levamos em conta a riqueza a ser explorada na parte social e de linguagem. Qualquer época ou contexto social pode ser trabalhado nos jogos de interpretação mediante uma boa preparação. Escolhemos este jogo e tema, justamente para simbolizar a restrição temática e como ela pode nortear os objetivos da atividade aplicada pelo educador. Como uma opção bastante proveitosa, a turma submetida ao processo poderia, para ambientar as futuras narrativas, assistir algum filme relacionado ao período estudado. O jogo se dará na época do descobrimento do Brasil e de como os portugueses se firmaram na nova terra. Caramuru e O Guarani seriam ótimas opções dentre tantas. Isto poderia ajudar no processo de construção do mundo pela imaginação, característica tão necessária nos jogos de interpretação. Com certeza a descrição dos cenários pelo narrador seriam bem mais ricas e elaboradas, além do ganho cultural que, com certeza, já são um aprendizado bastante eficiente. No RPG, os personagens (neste caso os alunos) viverão uma aventura proposta pelo mestre/narrador. Aqui entra a riqueza de possibilidades que este exercício envolve. Já temos a ligação entre um livro de RPG e um (ou mais) filmes. A referência vem sendo construída, mas seria bem mais consistente se ela fosse também relacionada a um livro. Existem dezenas de obras nacionais e estrangeiras que poderiam ser exploradas neste contexto e, unir o RPG ao enredo de um livro, enriqueceria bem mais o processo (como veremos mais adiante) e facilitaria o trabalho de quem pretende aplicar esta atividade. Neste caso faremos a abordagem da temática aplicada ao livro Desmundo, de Ana Miranda (Companhia das Letras).

Aspectos Históricos e Literários

Tendo em vista que se pretende trabalhar a questão histórica e literário-lingüística, escolhemos o livro Desmundo, da escritora cearense Ana Miranda, primeiramente, pela riqueza da linguagem utilizada e pelos aspectos descritivos da época, escritos de forma incrivelmente rica. Ao escolher um livro, já se tem automaticamente uma narrativa pronta. Desmundo narra, pelas palavras da protagonista Oribela, a vinda de um grupo de órfãs para casar-se com os cristãos portugueses que habitavam as terras da colônia portuguesa. Dentro desta narrativa, se vislumbra todo um mundo novo e diferente do conhecido. Os detalhes descritos na obra literária são bem mais intrínsecos e profundos que os presentes nos livros de história. E dentro deste universo temos um universo lingüístico e social. Trabalhar a interação entre os personagens, já seria um capítulo a parte: imagine como seria o convívio entre uma órfã recatada, um mascate cristão–novo, um índio antropófago, um jesuíta e um nobre português? Impossível pensar em um grupo mais inusitado em um RPG de temática realista! A riqueza presente nos primeiros dias do Brasil, ainda em processo de colonização, era tão grande que, somente através da vivência se poderia compreender os diferentes nuances existentes. Para firmar ainda mais as descrições de costumes, linguagem e ambientação, é extremamente recomendado que o narrador busque outras fontes. E isso pode posteriormente ser trabalhado com os alunos como forma de firmar o conhecimento adquirido. Neste caso, como fins de limitar o que se pretende aplicar em termos de ensino, nos restringiríamos aos livros Carta de Pero Vaz de Caminha (Editora Martin Claret) e Viagem ao Brasil, de Hans Staden (Editora Martin Claret). Temos a visão de dois estrangeiros sobre a terra e os índios. Esta visão poderia ajudar no estranhamento dos personagens/alunos aos costumes dos indígenas, principalmente para os que estivessem jogando com portugueses. No caso do primeiro livro, teríamos também um reforço da linguagem. Existem outros livros que serviriam muito bem para enriquecer o exercício, especialmente as obras de José de Alencar: Ubirajara, que retrata o índio em seu estado puro, antes da colonização portuguesa; O Guarani onde percebemos o início da colonização e as alianças e atritos entre portugueses e nativos e Iracema, consolidação do domínio português e miscigenação entre os dois povos. De um ponto de vista limitado (até certo ponto), temos embasamento suficiente para trabalhar a história do Brasil de forma lúdica, criativa e inovadora, incentivando a busca pelo conhecimento (através da leitura dos livros), além dos tradicionais benefícios do RPG como a interação.

Jogando nas Fremosas Terras de Acó!

Pesando nos objetivos a serem alcançados pela atividade proposta, especificamos agora os objetivos lingüísticos pretendidos. A temática já sugere o estudo da estrutura das palavras e de neologismo. Em um contexto onde as línguas indígenas se misturam ao português arcaico (galego-português), os alunos irão vivenciar a formação da língua portuguesa. A inserção de palavras antigas ou indígenas, que viriam a integrar a língua oficial brasileira pode ajudar, e muito, na compreensão de regras gramaticais e aplicação de certos aspectos sintáticos e morfológicos. O uso de pronomes menos utilizados como “tu”, “vosso” e “convosco” pode ser trabalhado satisfatoriamente, pelo contexto que exige a linguagem mais rebuscada e/ou diferente. Além de a narrativa estar permeada por termos antigos e de como eles se adaptaram ao nosso atual léxico. Neste ponto, a utilização dos filmes e livros adicionais irão ajudar bastante na ambientação do aluno ao universo novo da língua ao qual será exposto. Em termos de jogo, o narrador poderia fazer o personagem não ser muito bem compreendido se não se expressasse segundo a linguagem da época. Isto seria dos estímulos possíveis para estimular o interesse pela pesquisa e absorção de novas palavras. Ana Miranda utiliza muito de onomatopéias, além de diversos outros tipos de figuras de linguagem, mais um ponto riquíssimo a ser explorado pelo orientador. Outro ponto relevante é o neologismo, a reorganização de palavras seria um atrativo mais que necessário para aplicar o conceito de estrutura das palavras, principalmente de afixos. A verdade é que para explorar conceitos da língua portuguesa, difícil escolher melhor obra, dada a riqueza lingüística aplicada ao enredo.

Conclusão

Embora tenhamos entrado um pouco mais profundamente no assunto, estes aspectos citados ainda são considerações bastante generalizadas. Mesmo especificando um assunto determinado, e embasando o mesmo em um número limitado de obras literárias e/ou filmes, a riqueza a ser explorada é imensa. Aqui pretendemos dar um norte aos que pretendem conhecer um pouco mais sobre como utilizar o RPG como uma ferramenta educacional. Em outro momento iremos aprofundar mais este tema em específico, além de outras nuances. De forma alguma o que está escrito aqui se apresenta como algo definitivo sobre o assunto, mas sim uma contribuição baseada em estudos e leituras mais aprofundadas sobre o tema e seu atual desenvolvimento.

 

Sérgio Magalhães

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5 comentários sobre “RPG e Educação – Literatura e História

  1. Sérgio, eu sei que, como sou seu amigo e parte do grupo Vila do RPG, talvez minha opinião seja suspeita… maaaaasssss…

    O post está FANTÁRDIGO! Como diria o ilustre professor Tititica…

    Falando como professor de História, essas dicas são extremamente valiosas para aqueles que se perguntam como usar o RPG de forma pedagógica. Eu, particularmente, indico como sistema de regras o Mini GURPS Descobrimento do Brasil (que você inclusive usou para ilustrar o post). O livro já é totalmente voltado para a temática Brasil colonial e tem regras simples e divertidas.

    Outras disciplinas podem também ser trabalhadas facilmente ao usar o sistema e a temática indicada: seu nível de complexidade matemática já trabalha também essa disciplina; ao apresentar flora e fauna, trabalhamos as ciências; descrever as características físicas da ambientação trabalha com geografia e por aí vai…

    A imaginação do narrador-professor é o limite!

  2. Caramba!

    Quando vi o título do post pensei: PQP quem deixou colocar aqui esse porcaria desse tema batido e sem sal?! Agora chutaram o pau da barraca?!

    No entanto comecei a ler… conclusão?

    MEUS PARABÉNS!

    É dificílimo abordar um tema já tão amplamente debatido e conseguir apresentar material inédito e de boa qualidade. E esse post conseguiu isso com primor.

    Parabéns Sérgio, excelente artigo.

    Vale lembrar também que o Narrador/Professor não precisa prender-se ao cenário do Brasil Colônia. O Império Romano, Grego e Egípcio foram muito bem detalhados em suplementos GURPS (alguns lançados aqui no Brasil).

  3. Valeu mesmo amigos. A intenção deste artigo, e de outros que virão. é mesmo debater coisas novas acercas do assunto. O fato de ser professor e RPGista me ajuda e muito neste ponto, pois sei na prática o que poderia ou não dar certo em determinadas situações.

    Na faculdade, vemos diversas atividades totalmente fora da realidade de nossa rede de ensino, principalmente pública, mas acredito realmente que este tipo de abordagem daria mesmo resultado, é muito!

    Agradeço mais uma vez e esperem novidades :]

  4. Parabéns!
    O post está realmente muito bom, rico em informações e com uma linguagem simples e direta que prende a atenção do leitor e deixa um gostinho de quero mais.

    Mesmo não entendendo muito sobre RPG, gostei da dica e confesso que como professora de literatura me deu uma vontade de conhecer mais sobre o assunto, me aventurar por esse novo mundo para deixar minhas aulas mais atrativas.

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