Tinta & Pena – Tim Bradstreet

Nos artigos anteriores da coluna Tinta & Pena falamos de três mestres da ilustração, relacionados à fantasia medieval: Wayne Reynolds, Larry Elmore e Brom. Agora partimos para uma nova temática: o horror. E para representar os artistas que trabalham neste ramo tão vasto, profundo e intrigante, escolhemos nada menos que Tim Bradstreet.

Mais conhecido no universo do RPG por suas ilustrações em Vampiro: a Máscara, Bradstreet e sua arte vão além disso, principalmente quando levamos em conta sua contribuição para o mundo nerd em geral (quadrinhos, games e RPG). Autoditada desde o início de sua carreira, Bradstreet procurou aprimorar seu talento trabalhando com desenhistas mais experientes. Em 1985 entrou para a editora Fantasmagrafics, onde passou a desenhar sob a tutela de Steve Venters. Neste período fez suas primeiras ilustrações para RPG. No entanto, o primeiro título de nome em que contribuiu foi Dragon Chiang, onde atuou em parceria com Tim Truman, em meados de 1990. Na verdade, foi no início dessa década que Bradstreet fez seu nome, especialmente ligado aos jogos de interpretação.

Gênero Cyberpunk

Antes de seu maior sucesso ligado ao RPG, o artista desenhou para os jogos Twilight 2000 e Shadowrun. Este segundo representou, para Tim, uma prova de seu talento e inventividade. Na época do lançamento deste cenário de campanha, vinha sendo formado o conceito de cyberpunk. Era uma temática inovadora chegando aos jogos de interpretação, no período, inundado por títulos originais e com forte apelo artístico. Dentro desta situação, a obra de Bradstreet contribuiu pela primeira vez na elaboração de um projeto visual novo, sem se desprender do tradicional. Para as novas gerações que, infelizmente não conhecem este jogo, vale uma breve explicação, ok? Shadowrun é um cenário de campanha que mistura futurismo e fantasia medieval. Ou seja, aqui gangues de orcs perambulam pelas ruas enquanto bravos heróis élficos tentam realizar façanhas inacreditáveis; anões, mestres na arte da tecnologia e do concerto, desenvolvem armas cada vez mais potentes, enquanto dragões lideram organizações criminosas. Em suma, era uma visita ao moderno, sem perder a ligação com o tradicional. O cenário, até hoje é visto como um dos mais originais já criados. Neste contexto, o ilustrador foi um dos que ajudou na criação do conceito artístico deste mundo novo e cheio de nuances próprios.

O Punk-Gótico

Um dos vários trabalhos de Tim Bradstreet para Vampiro: A Máscara.

No início dos anos noventa, o RPG passava por uma fase onde a tradição já dava sinais de desgaste, e tentativas de inovação em relação à novos cenários não vinham rendendo bons frutos. Eis que surge Vampiro: A Máscara, de Mark Hein-Ragen. Um divisor de águas para os jogos de interpretação. O cenário trouxe, além de uma nova forma de jogar, quase totalmente baseada na interpretação, a construção de um novo conceito: o punk-gótico. Passou a vigorar, ao invés das ilustrações coloridas e sempre com expressões vívidas de Dungeons & Dragons, os tons escuros e o vermelho rubro. Dentro desta visão, Bradstreet foi um dos mais competentes desenhistas do gênero que surgia. Novamente Tim ajudou na construção de uma temática e, neste quesito, demonstrou sua arte versátil e inovadora. Vampiro inovou, como dissemos, tanto na sua jogabilidade, quanto em seu projeto artístico. As figuras desenhadas como se estivessem sobrepostas sobre fotografias (projeto chamado fotorealismo) passaram a ser imediatamente associadas ao conceito vigente. Foi após este trabalho que o artista ganhou renome mundial e imediatamente foi incorporado a outros projetos relacionados, como o game Vampire: Boodlines (Activison Games), por exemplo.

Capas, Premiações e a Sétima Arte

Reconhecido como um dos mais competentes desenhistas de capas de quadrinhos, ele trabalhou em dezenas de linhas em diferentes editoras, indo da fantasia à ficção científica. Entre os trabalhos de maior destaque estão contribuições em cenários como Star Wars (Dark Horse), O Justiceiro e Blade (Marvel) e Hellblazer (Vertigo), no qual seu nome é mais comumente associado. Também é visto com freqüência nos quadrinhos da série Marvel Max, linha para adultos da Marvel Comics. Sua arte cai como uma luva em temáticas mais sombrias e/ou realistas, dado o seu traço enxuto e bastante próximo da realidade. Em 1996 recebeu o prêmio de melhor artista pela Internacional Horror Guild. Por Hellbrazer foi indicado em 2005 por melhor capa de quadrinhos. Em 2002 também recebeu uma indicação ao prêmio Eisner. Graças ao seu excelente trabalho nos quadrinhos e RPG, Tim foi convidado para ser artista conceitual em dois filmes bem próximos de sua arte no papel: Blade 2, e O Justiceiro (o novo, não aquela negação com John Travolta como vilão), de 2003, produzido pela Marvel e Lions Gate Films, onde elaborou uma série de posters para o filme.

John Constantine no traço de Tim Bradstreet.

Legado

Tanto na memória dos RPGistas do mundo inteiro, quanto na própria história do jogo, a arte de Tim Bradstreet ficará. Em Vampiro: a Máscara, o americano demonstrou um modelo novo e perfeito ao gênero horror, e foi um dos arautos deste estilo punk-gótico, revelado pelo tão aclamado Mundo das Trevas e suas criaturas da noite. O fotomodelismo e os traços próximos à realidade marcam o estilo inigualável do americano que é referência nos quadrinhos quando se fala de horror/mistério. O enorme sucesso de títulos da Vertigo pode comprovar isso. Se você viveu em plenitude a década de noventa em meio ao RPG, a arte deste ilustrador está entranhada em sua memória. Se não o conhece, procure um pouco mais, pois vale muito à pena!

Sérgio Magalhães

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