Narra-A-Ação: Novos Heróis em Velhas Campanhas

Dicas de como inserir novos personagens em sua campanha e como integrá-lo ao grupo através de motivações e/ou objetivos em comum!

Se você já mestrou uma campanha, por menor que tenha sido, provavelmente passou por este problema que atinge quase 100% das mesas de RPG: ter que inserir novos personagens no meio da campanha. Uma das coisas mais divertidas que se tem nos jogos de interpretação é poder desenvolver os personagens, ver aqueles novatos de primeiro nível, humilhados e/ou ignorados pelos figurões do cenário, tornarem-se seres memoráveis e detentores de grandes poderes e riquezas! Porém, isso nem sempre é possível para todo o grupo. Conseqüentemente algum dos heróis acaba deixando a narrativa ou morrendo durante as aventuras. Primeiro temos que analisar as causas do porquê inserir novos personagens no meio do jogo. Basicamente, estes novos heróis terão que entrar na aventura por dois motivos: ou por morte do personagem (obrigando o jogador a construir outro), ou pela entrada de outra pessoa na campanha. O primeiro caso é bem mais simples para mestre e jogador, pois a pessoa já esta ambientada no ritmo do grupo, sabe bem sobre o enredo que esta sendo jogado e pode, facilmente, construir outro herói sem prejudicar o ritmo da narrativa. Agora, o problema está no segundo caso, e também por dois motivos: primeiro, nem sempre a aventura esta em um bom momento para que se inclua um novo personagem, principalmente quando se está próximo ao clímax do jogo, quando os mistérios estão sendo, finalmente, desvendados, e o vilão principal se aproxima. Segundo, o grupo já tem um ritmo próprio, suas piadas internas, e sua forma de jogar. Incluir uma pessoa, especialmente quando estranha, pode causar certa quebra no andamento da aventura. Porém, nos dois casos existem soluções práticas e bastante viáveis além de divertidas.

Quanto ao que falamos em primeiro lugar, de não ser o momento exato para se incluir um novo personagem na aventura, é um fato que pode ser contornado com um pouco de esforço e já resolvendo o segundo simultaneamente. Como fazer isto? Explico: digamos que um jogador apareceu na ultima sessão da aventura, onde os heróis finalmente enfrentarão o vilão da trama. Poderíamos dizer que o personagem do novo jogador está preso na masmorra e somente ele sabe o caminho mais seguro para o salão do grande inimigo do grupo. Uma forma de integrar ainda mais o novato seria passar ao seu personagem informações vitais para a continuação da campanha, como algo importante da história de algum dos membros do grupo ou a localização de um inimigo dos heróis. Isso conseqüentemente o estimularia a interagir e começar o jogo com uma ótima imagem perante os veteranos. Quem não gosta de alguém que o ajude?. O bom de jogar uma campanha é que sempre existe um novo desafio – a menos que se esteja acontecendo o final do enredo, ai já é outra história. Mesmo entrando no ultimo momento de uma sessão, este novo personagem pode ser um importante gancho para os novos acontecimentos que estão por vir.

Afinal, quem é esse cara?

Nas duas últimas oportunidades que participei de uma mesa de RPG como jogador, entrei no meio de campanhas (fatos que me deram inspiração para escrever este artigo). Em ambas senti uma grande dificuldade do mestre em inserir um personagem na ambientação, embora minha visão fosse totalmente contrária. Por exemplo: em uma destas mesas estava rolando Vampiro: o Réquiem, na Idade das Trevas, e os personagens estavam sendo mantidos prisioneiros em um feudo liderado por vampiros. Eram todos humanos, os personagens e dezenas de servos do local. Meu personagem entrou no momento em que um ataque de lobisomens foi deflagrado contra o feudo. Não entendi, no caso, o porquê da dificuldade do mestre em inserir um novo herói exatamente neste momento da narrativa, para mim totalmente propício para tal. Poderia ser um servo do feudo que acabou vendo demais e estava tentando criar um levante contra seus mestres vampiros, um viajante que acabou, por engano, se acolhendo dentro do feudo maldito, uma vítima dos lobisomens que foi salvo durante uma investida dos lupinos… As possibilidades são muitas.

Entro nesse grupo nem que seja na porrada!

Existe um aspecto que, muitas vezes, já percebi em mestres e em sua relação com as campanhas que narram: o excesso de preciosismo. Isso mesmo, o cuidado exagerado em tornar tudo coerente, dinâmico, muito bem amarrado. Para mim, algo extremamente negativo para a diversão. A organização e cuidado com o enredo e a criação de personagens são, obrigatoriamente, funções do mestre, porém restringir demais em favor da coerência pode ser prejudicial para a coisa mais importante do RPG: a diversão! Não sei se é uma opinião pessoal demais, mas devo dizê-la: as aventuras mais divertidas que já participei foram com heróis feitos no improviso e durante a campanha. E não só eu, mas o grupo em si. Às vezes os problemas são a “cor” de uma narrativa. Imagine um reino onde todos respeitam religiosamente regras de etiqueta, e portam-se de maneira nobre. Agora imagine um barbado meio-orc de Carisma 7 neste mundo. Com certeza, seria algo comentado por muito tempo – dá pra imaginar as cenas engraçadas e situações inusitadas. Ou seja, ao se deparar com esta situação, de ter que incluir um novo personagem no meio da campanha, procure situações que ajudem o desenrolar da narrativa, não restrinjam (pelo menos não demais) e abram sua imaginação.

Aplica-se aqui algo muito bem empregado no excelente Guia do Mestre de Dungeons & Dragons 4ª edição: em uma partida, principalmente onde você deverá improvisar muito, diga mais sim do que não. Uma partida de RPG é feita para viver coisas incomuns, fora dos padrões, então não tenha medo de mudar o que achar necessário em favor da diversão do grupo como um todo. Se os jogadores querem que o novo personagem apareça, pronto, ali esta ele, sem maiores explicações ou conceitos filosóficos ou metafísicos. O único cuidado que você deve ter é o de ter medo de inovar ou simplificar.

Prevendo o Imprevisível

Ops! Parece que esse não era o melhor momento para entrar no jogo!

Quando se tem noção que terá que incluir novos personagens, algum tempo antes, as coisas acabam ficando mais fáceis. Como exemplo, irei usar uma campanha que mestrei há pouco tempo. A primeira aventura estava em sua ultima sessão, já sabia que alguns jogadores deixariam a mesa por motivos diversos e novos seriam incluídos. Mas havia um problema: nem todos esses novos jogadores poderiam comparecer no primeiro dia da nova aventura da campanha e ainda havia a possibilidade de apareceram jogadores de última hora! O que fazer em um caso desses? Nada de genial ou inovador, apenas prático. Os personagens que restaram da aventura passada foram transportados para uma imensa cidadela abandonada, grandes construções arruinadas que permeavam todo um vale desolado, e eles deveriam achar um modo de voltar ao seu mundo de origem. Na primeira sessão, dois novos jogadores entraram e foram encontrados pelo grupo ao longo de sua exploração pelas ruínas. Eram viajantes perdidos, mas que poderiam facilitar a missão do grupo se atuassem junto deles. Pronto! Novos heróis na narrativa. Depois, um antigo jogador voltou e disse que poderia continuar jogando a campanha, porém, no enredo ele havia partido em busca de informações sobre o seu passado. Solução: ele encontrou várias coisas sobre sua vida, e também para solucionar alguns problemas dos outros personagens; devidamente reintegrado!

Como deu pra perceber, pode-se criar ambientações que facilitem a integração de novos heróis no grupo, basta dedicar um mínimo de tempo para conseguir criar bons ganchos para isso. Mas você pode dizer “quero jogar com esse personagem, mas não tenho idéia sobre a história dele”, ótimo, mais um excelente gancho! Quando o jogador deixa o passado do personagem nas mãos do mestre, se abre um leque de possibilidades incrível. Porém, não é obrigatório que ele já entre na sessão de jogo dizendo tudo sobre sua vida – aliás, quem faz isso? Sua história pode ir sendo criada por mestre e jogador ao longo das aventuras, e todo esse mistério pode acrescentar um nuance todo especial ao enredo.

Um aventureiro em casa esquina!

Nos filmes, quadrinhos, desenhos e livros, geralmente o protagonista e seus aliados já aparecem no início da história e permanecem inalterados até o seu final, salvo raras exceções. Porém, em uma mesa de RPG isso é mais comum do que se possa imaginar.

Vamos utilizar como exemplo, o desenho Caverna do Dragão. O grupo é coeso, já tem um ritmo próprio e permanece inalterado durante toda a campanha, sem que nenhum outro personagem adentre neste círculo sagrado já fundamentado e sem possibilidades de alteração. Ok, pode até ser, mas vamos pensar se o roteiro do desenho animado fosse uma narração de RPG. Sir John, o cavaleiro covarde que aparece no episódio O Olho do Observador (The Eye of the Beholder) não poderia ser o personagem de um jogador que participou apenas de uma aventura e depois deixou o grupo? Reitero aqui o mesmo que disse acima, um novo personagem sempre abre uma possibilidade para uma nova aventura, ou acrescenta, basta fazer esta inserção com competência. Temos outros exemplos deste tipo de acréscimo no desenho citado, como o gigante Kelrox em Servo do Mal (Servant of Evil) e o cavaleiro amaldiçoado Dekkel no episódio A Procura do Esqueleto Guerreiro (Quest of Skeleton Warrior). Todos são excelentes exemplos de personagens que interagiram com o grupo e logo após saíram sem prejuízo à história ou a campanha como um todo.

Em qualquer cenário de campanha, seja horror, fantasia, ficção científica, humor, um companheiro pode ser encontrado despretensiosamente em qualquer esquina, e isso não prejudicaria em nada o teor grandioso de uma narrativa. Seria apenas um fato corriqueiro que mudou, até para sempre, a vida de um grupo de personagens. Imagine também o enredo de O Hobbit como sendo uma campanha; tem forma mais simplória de integrar um novo personagem como Bilbo foi inserido no grupo de anões aventureiros (“Vão até a casa do ladrão e ele os guiará até seu tesouro perdido”)? Repito: a receita para isso é puramente a simplicidade dosada por uma imaginação fértil.

Considerações de um novo personagem

Finalizo por aqui este assunto ao extenso e controverso. Devo salientar que estas não são “dicas de mestre” ou coisa parecida. Vejo mais como uma troca de experiências e relato de vivências de mais de uma década de muito RPG (dos mais variados sistemas e ambientações). Não sou o dono da verdade e o que foi dito aqui não são verdades absolutas, e sim questionamentos e opiniões pessoais que visam a facilitação e, acima de tudo, discussão de novas alternativas para as narrativas.

Sérgio Magalhães

Anúncios

7 comentários sobre “Narra-A-Ação: Novos Heróis em Velhas Campanhas

  1. Putz, dessa vez o Sérgio se superou! Um artigo digno de revista especializada em RPG.

    Gostei bastante da questão do preciosismo. É a mais pura verdade. Dentre os melhores jogos que participei/narrei, o improviso certamente fez a diferença.

    Como prova temos a aventura de OldDragon do sábado passado. Improviso é o mestre da coerência.

    1. Realmente um tremendo post! Sabia que ia ser campeão de visualizações quando eu estava revisando, hehehehehehe…

      Quanto ao assunto central, é mesmo algo delicado. Como mestre, gosto de manter um certo nível de verossimilhança e continuidade narrativa. No entanto, isso pode frustrar os jogadores recém-chegados no jogo ou mesmo o mestre em alguns casos. Creio que o caminho ideal seja um meio termo, afinal, a diversão deve ser para os dois lados (mestres e jogadores).

      1. É verdade, Imiril. Esses posts são interessantes.

        Mas é a primeira vez que eu vejo falar sobre “railroad” e “sandbox”. Eu nunca tinha jogado com um narrador que não permitisse os jogadores modificarem o resto da aventura, por isso não fazia essa diferença.

  2. Valeu galera, aguardem novidades sobre o assunto “meta-rpg”. Farei o possivel para manter a qualidade :]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s