Romances Nacionais de RPG

Poucos dias atrás tive a oportunidade de ler alguns capítulos do livro O Terceiro Deus (Jambô Editora), do escritor Leonel Caldela. O romance é ambientado em Arton, cenário de campanha do RPG Tormenta. Lendo o volume me veio à mente como o gênero fantasia vem crescendo e ganhando visibilidade no Brasil. E não somente este tipo de literatura, mas os romances baseados diferentes cenários, ou temáticas, ligados aos jogos de interpretação. Antes mesmo de fazer o curso de letras na Universidade Federal do Ceará e participar de um dos últimos grupos de estudo de literatura fantástica do estado, o GRELF (Grupo de Estudos de Literatura Fantástica), eu já era super interessado em livros com temáticas fantásticas e/ou maravilhosas. Este fato me fez acompanhar desde cedo os lançamentos nacionais relacionados a ambientações ligadas ao RPG e, mais tarde, optar por estudar mais a fundo este gênero literário tão desconhecido em nosso país, e que somente nestes últimos anos vem ganhando a grande mídia e adquirindo o status de cool entre a população em geral. Bem, baseado neste acontecimento tão simples e casual citado no inicio deste post decidi fazer uma breve visita aos livros baseados em RPG lançados em nosso país. Claro que não tenho aqui a pretensão de encobrir todas as obras que se encaixam neste contexto, mas sim, ressaltar os mais representativos e marcantes em suas determinadas épocas.

As obras de fantasia sempre foram consideradas clássicas no mercado europeu. J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, E.R. Eddison, são apenas alguns dos nomes que ajudaram a consolidar este gênero como leitura obrigatória para jovens e adultos do velho mundo. Porém o estilo ganhou uma força renovada com o advento de algo que ele próprio ajudou a criar: o RPG. Com a popularização dos jogos de interpretação de personagens, não demoraram a surgir os primeiros escritos ambientados nos principais cenários de campanha. E tão logo surgiam, eram devorados pelos fãs cada vez mais ávidos por novidades relacionados aquele jogo tão envolvente e inovador! Dragonlance e Forgotten Realms, dois dos mais populares mundos do universo RPGista, logo tiveram seus primeiros romances publicados e rapidamente ganharam status de Best Sellers no mercado americano e europeu. Ao longo dos anos esta característica só cresceu. Tão logo um cenário de campanha surgia, obras literárias vinham em seu rastro ambientando seu universo e enriquecendo seus aspectos. Da fantasia a ficção científica, todos os jogos eram endossados por textos relacionados.

Fantasia e Romances de RPG em Terras Tupiniquins

No Brasil, somente muitos anos depois da chegada do RPG os primeiros textos começaram a surgir, e décadas depois ganharam notoriedade junto ao público. A primeira obra relevante neste contexto foi Espada da Galáxia, de Marcelo Cassaro. Aproveitando o grande sucesso da ficção cientifica que predominava na segunda metade dos anos 90, o autor trouxe à tona um texto mesclando a realidade da conquista espacial americana, com ficção ao melhor estilo invasão espacial. O grande destaque do livro, premiado no mercado editorial nacional, foram os metalianos, uma raça de insetos metálicos paranóicos com a defesa de sua rainha. Segundo o romance, foram eles que sabotaram os primeiros esforços humanos em conquistar o espaço. O livro originou um RPG chamado Invasão, do mesmo autor. Ambos mexeram com o público  RPGista da época e geraram vários outros produtos, especialmente quadrinhos. Anos depois, foi o horror e o misticismo da virada no milênio que predominaram. Aproveitando o enorme sucesso de seus jogos, a Daemon Editora lançou um romance baseado em seu RPG principal: Trevas. O livro era Entre Anjos e Demônios, de Antônio Augusto Shaftiel. Ao contrário de Espada da Galáxia, este livro não gerou um RPG, mas sim, foi baseado em um cenário existente. Na época de seu lançamento, Trevas já era uma ambientação consolidada no mercado nacional, e o livro veio ilustrar ainda mais este sucesso. Embora não tenha abalado o mercado tanto quanto o primeiro, a obra foi pontual para a construção de um cânone literário ligado à fantasia no Brasil. O texto exibia uma típica aventura do cenário abordado: um grupo de anjos vindo para a Terra, mandados por um poderoso arcanjo, com o propósito de capturar um feiticeiro engendrado em uma trama diabólica! Neste primeiro momento, avalio estas duas obras como as mais representativas dentro da ótica abordada. Lógico que outras de menor apelo em relação ao público foram lançadas, mas como itens de exemplificação, estes servem muito bem ao objetivo pretendido.

A Ascensão das Trevas

Após a primeira empreitada a Daemon Editora seguiu com força total lançando obras literárias baseadas em seus jogos de RPG. Entre Anjos e Demônios foi seguido por dois outros livros: Lanças de Christos – Assassino de Almas e Lanças de Christos – Príncipe da Destruição. Shaftiel possui um texto envolvente, com cenas de ação marcantes e um enredo que surpreende do começo ao fim. A qualidade de sua escrita realmente foi uma grata surpresa aos leitores, desde o primeiro livro. Os fãs de Trevas, e principalmente do suplemento Anjos: A Cidade de Prata adotaram logo as obras como preferidas em suas bibliotecas e não por acaso. Dentro da ambientação cheia de deuses, entidades angelicais e demoníacas e magia, a narração do autor adapta perfeitamente o cenário à sua aventura escrita. Seguindo o exemplo bem sucedido do primeiro, o escritor principal da editora, Marcelo Del Debbio, também dedicou seu grande conhecimento e competência para escrever romances. Autor dos principais RPGs da editora, Del Debbio iniciou sua carreira literária com Vampiros – Principia Discórdia. Também ambientado no universo de Trevas RPG, porém mais focado no suplemento Vampiros Mitológicos, a obra segue uma trama bem armada com uma descrição sensacional da cidade de Londres. Baseado nas principais lendas de vampiros da Inglaterra, o romance serve perfeitamente como pano de fundo para as aventuras de qualquer narrador, principalmente pela qualidade das descrições e da mistura entre realidade e ficção. Em seu segundo livro, Del Debbio muda o foco de seus personagens. Em Busca por Sangue, a visão é concentrada não mais nos imortais amaldiçoados, mas em um grupo de caçadores prestes a enfrentar uma batalha épica. Por fim, em relação a este cânone da citada editora, temos a mais recente obra de Shaftiel: Benção do Inimigo, onde vislumbramos um mundo em guerra onde um grupo de heróis tenta buscar a cura para um mal que desconhecem. Por todos estes livros, a editora além de uma grande potência nacional nos lançamentos de RPG, também foi a mais representativa no tocante aos romances ligados aos jogos de interpretação até então. Sua iniciativa mostrou que o mercado estava sim pronto para absorver este ramo já consolidado nos grandes mercados de RPG do mundo.

A Consolidação da Fantasia

Nos últimos anos percebemos a ascensão da fantasia medieval. Característica marcante principalmente pela supremacia do estilo também nas mesas de RPG. No Brasil não há dúvida que o maior representante deste estilo é Leonel Caldela. Autor dos romances O Inimigo do Mundo, O Crânio e o Corvo e O Terceiro Deus, todos pela Jambô Editora. A trilogia é ambientada em Tormenta RPG, um dos cenários de campanha mais jogados no mercado nacional. Porém, a escolha por estes títulos para pontuar esta fase atual dos lançamentos relacionados à fantasia, especialmente romances baseados em RPGs não é a ligação com este cenário de grande sucesso, e sim pelo grande baque causado por estes livros entre os jogadores brasileiros. Caldela escreve de maneira competente e que não deve nada a grandes nomes do gênero como R.A. Salvatore ou Margareth Weis. No entanto algo o distingue destes, a forma de conduzir o enredo. Sua trama é mais humana e trágica do que fantástica, característica bem diferente dos tradicionais livros de fantasia. Os heróis são seres cercados por conflitos e incertezas e seus atos nem sempre acabam com ações heróicas ou benéficas. A verdade é que estes romances foram o ponto final na consolidação dos livros ambientados em cenários de RPG. Um fato importante de ser citado é a entrada da Jambô Editora como forte representante deste mercado. Além dos livros citados eles também investem pesado em livros do gênero fantástico e muito relacionados ao RPG como: O Caçador de Apóstolos, também de Leonel Caldela; e Kimaera, de Helena Gomes. Entretanto, o mercado continua lançando obras cada vez mais abrangentes, exemplo disso foi o recente lançamento de O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio, de José Roberto Vieira; considerado o primeiro romance do estilo steampunk do Brasil. O cânone literário nacional ligado a fantasia e romances baseados em RPG cresce em número e qualidade, e conhecer e avaliar estas obras só demonstra a evolução digna do aspecto literário nacional e prova que o livro em nosso país ainda tem importância vital.

A História Continua…

Repito nesta conclusão o que foi dito acima, pontuamos aqui principalmente romances baseados em cenários de RPG. Existem centenas de obras de fantasia, englobadas dentro do gênero literatura fantástica. Seria impossível descrever aqui todos estes livros e sua importância para o nosso mercado literário. O objetivo aqui foi somente pontuar obras que marcaram sua época de alguma forma, sendo pioneiras dentro de suas propostas. Caso seja de seu conhecimento alguma obra digna de nota, será muito bem vindo a participar através de seus comentários.

Sérgio Magalhães

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8 comentários sobre “Romances Nacionais de RPG

  1. Ótimas indicações de leitura, Sérgio!

    Dos livros citados acima eu li apenas “Entre Anjos e Demônios” e “O Assassino de Almas”, do Antônio Augusto. Gostei bastante dos personagens, da trama e da forma como ele retrata o universo do Trevas, com exceção de uma aparição do Tio Víctor (sim, aquele mesmo do Castelo Rá-Tim-Bum) gritando seu bordão “raios e trovões”.

    Já o “Espada da Galáxia” eu nunca li. Reconheço a importância da obra para a ficção científica no Brasil, mas nunca tive muito saco pras “formigas peitudas” (metalianos) nem pros “Transformers genéricos” (traktorianos) do Cassaro. Tanto que em minhas aventuras de Invasão, eu só usava os clássicos Gray. A trama é massa, mas eu não consigo digerir as excentricidades do cara.

    Já a trilogia do Caldela, apesar de não ter lido, tenho grande curiosidade. As críticas são ótimas e me parece que ele conseguiu reformular o cenário de Tormenta de uma forma a dar mais seriedade ao mundo de Arton. Não sou muito fã das influências que o cenário tem de anime/mangá, mas me parece que o foco do Caldela é outro. Devo adquirir os livros e lê-los em um futuro muito próximo…

    PS: Sérgio, que tal um post falando dos romances de D&D, como os livros de Dragonlance e Forgotten Realms?

  2. Primeiramente valeu os elogios Dmitri. Quanto aos romances mais clássicos pretendo fazer sim algo a respeito, principalmente para mostrar para as novas gerações como era o RPG em seu período áureo! rsrs Teremos sempre aqui sugestões de leituras para a galera que curte RPG bem embasado em ótimas narrativas.

  3. Bem, eu tive otimas referencias dos contos do Tormenta e li o Espada da Galáxia e gostei bastante.

    Eu li os contos do Shaftiel e pessoalmente achei-os fracos demais. Uma leitura chata, cheia de clichês e digna de quadrinhos do Spawn, onde todos são fortes e fodonicos. Eu não gostei e para conseguir terminar de ler eu tive que ignorar as descrições.

    De qualquer maneira, o post está otima e tenho curtido muito o blog de vc’s, tanto que abandonei vários que visitava diariamente e tenho visto o blog de vc todo o dia.

    Parabens mesmo!

    1. Valeu mesmo Rafael, elogios são sempre muito bem vindos e incentivam bastante, vindos do Reduto do Bucaneiro que, para nós, sempre foi uma referência, são melhores ainda. Ficamos realmente muito satisfeitos que considerem nosso trabalho galera!

      O objetivo do blog é justamente esse, trazer novidades diárias e com qualidade para os rpgístas do Brasil e do mundo.

    2. Valeu, Rafão! Muito massa mesmo ter nosso trabalho reconhecido por camaradas tão gabaritados quanto os bucaneiros!

      Cara, sobre os livros do Antônio Augusto, eu gostei bastante pq li na adolescência, saca? Com ctza se eu os relesse hj em dia, teria uma opinião diferente. Até porque minha visão do universo Trevas e de horror em geral mudou bastante. Eu não sou mt fã, por exemplo do modo fantástico que os acontecimentos se desenrolam nos livros dele. Me parece um D&D com anjos e demônios.

  4. Pingback: Jogo Literário |

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