Revisitando um Clássico: Castelo Falkenstein

Caro Mike, eu não estou morto! (…) Pouco mais de dois anos atrás fui enfeitiçado e levado à força da Terra para um universo alternativo que parece ser uma parte Senhor do Anéis e duas partes ficção científica de Júlio Verne, com uma pitada de Prisioneiro de Zenda. (…) Desde que vim para cá, eu salvei nações, entronei reis, derrubei impérios e tive um romance com a mulher mais bonita dos quatro continentes. Meus melhores amigos são um feiticeiro, o chefe capa espada do serviço real e sua Alteza o Rei das Fadas. Eu conheci a Rainha Vitória, Abraham Lincoln e o Capitão Nemo. Na semana passada tive uma longa conversa com Sherlock Holmes e hoje jantei com um Dragão; e eu não fui o prato principal...

Tom Olam, Castelo Falkenstein

Há poucos dias andei às voltas procurando conseguir um volume de um dos primeiros RPGs que conheci, em 1999 (o tempo voa). O livro em questão era Castelo Falkenstein. Depois de muito procurar sem sucesso recorri a um distribuidor/colecionador aqui da cidade – também proprietário de uma das maiores gibitecas (senão a maior). Depois de contar minha saga à procura do livro o sujeito compadeceu-se e ligou para um grande distribuidor que ele sabia ter vários livros desses em estoque – pois na época ele não vendeu o esperado e vários exemplares foram recolhidos. Depois de falar com a atendente ao telefone por vários minutos ele deu-me a triste notícia: sim, eles tinham vários livros daquele título no depósito, MAS NÃO PODIAM VENDER NENHUM porque na capa não consta o selo com a faixa etária recomendada e que é exigido pelo Governo Federal. O camarada argumentou de todo jeito com a atendente e até com o gerente, mas nada funcionou, e eu acabei  sem meu livro… Fui salvo apenas dias depois por uma alma caridosa no Orkut que conseguiu o livro – Deus sabe como, mas nele tem um selo de um sebo de Goiânia. Bom, isso incentivou-me a escrever um pouco sobre esse clássico esgotado nas prateleiras das livrarias- mas com alguns volumes mofando nos armazéns escuros de uma certa distribuidora…

Escrito por Mike Pondsmith, lançado nos EUA em 1993/1994 pela R. Talsorian Games (a mesma do Cyberpunk 2020) e vencedor do Origins Award Winners (1994), Castelo Falkenstein é um marco na história do RPGs. No Brasil ele foi lançado em 1998 pela Devir livraria, no mesmo período de GURPS e Cyberpunk 2020. Tudo nesse jogo foi feito pra ser original e inovador (principalmente se considerarmos a época). As ilustrações são compostas quase todas por belas aquarelas de Willian C. Eaken. O livro inteiro – as regras inclusive – são escritas na forma de uma crônica, ou melhor, na forma de um diário, redigido hipoteticamente – ou talvez não – por um homem chamado Tom Olan.

Tom seria um amigo de Mike (o autor), desaparecido há dois anos, quando enviou um pacote contento seus diários e anotações explicando que teria sido levado de forma mágica para um universo paralelo ao nosso chamado Nova Europa, o mundo do Castelo Falkenstein, e o que lhe acontecera desde então. Nova Europa é um universo paralelo onde elfos, anões, dragões e toda sorte de seres fantáticos vivem lado a lado com a magia e a ciência vaporpunk (vaportécnica, no livro) num cenário historicamente semelhante à nossa Era Vitoriana ao melhor estilo dos contos e livros de Julio Verne, Edgar Alan Poe, Arthur Conan Doyle e cia. Aliás, em Nova Europa todos esses homens ainda vivem e, mais impressionante, seus personagens também são reais!

O livro inteiro é repleto de coisas curiosas e detalhes que nos deixam sempre surpresos e lançam por terra vários clichês que são famosos em outros mundos de fantasia. O gênero das aventuras lembra os filmes pulp dos anos 80 (tipo Indiana Jones e Allan Quartemain), com mocinhos honrados, donzelas lindíssimas, cientistas loucos, duelos de espadas, armas destruidoras de mundos e o que mais do gênero você puder imaginar. E no plano de fundo temos uma Europa vitoriana repleta de tecnologia a vapor e magia, dominada por grandes impérios, reis e déspotas loucos, organizações criminosas e sociedades secretas, tudo muito divertido e misturado de uma maneira que só lendo pra entender.

Castelo Falkestein também inovava por não usar fichas ou sistemas numéricos (imagine isso em 1994), uma vez que na Nova Europa ainda não existem copiadoras. Ao contrário os jogadores são orientados pelo Anfitrião (Mestre do Jogo) a escrever seus backgrounds em um diário (isso mesmo um diário) e descrever suas habilidades com palavras chave específicas, tipo: Alfonse é um Ótimo Espadachim e Bom Cavaleiro, pois aprendeu tais ofícios com seu pai que servira muitos anos à Guarda Real Bávara… E por aí vai. Além de suas proficiências e falhas o jogador precisa informar seus desejos, ambições, amores, inimigos e outras coisas importantes. Para completar, o autor explica que naquele universo anacrônico, uma vez que jogar dados é um passatempo de patifes e malandros, os gentlemen Nova Europeus precisavam de um substituto para realizar os testes de habilidade e, portanto, um baralho é que faz as vezes de inserir o fator sorte aos testes.

Atualmente (e infelizmente) Castelo Falkenstein está esgotado na Devir, então o jeito é procurar em sebos, Orkut, Facebooks, Mercado Livre e onde mais essa aventura te levar. Parece que a Moonshadows ainda tem uns exemplares… Na terra do Tio Sam o selo não tem atualizações faz tempo, mas possui alguns títulos publicados além do Corebook: Six-Guns & Sorcery (introduz o Velho Oeste ao cenário), The Memoirs of Auberon of Faerie (que melhor descreve e expande o cenário das fadas) e inclusive o GURPS Castle Falkenstein.

Os dragões de Castelo Falkenstein: sábios, poderosos, traiçoeiros e... com cara de Pterodáctilo?!

É camaradas, apesar de velho esse livro vale muito à pena. Absolutamente à frente de seu tempo, Castelo Falkenstein tem conceitos que só recentemente estão sendo absorvidos pelo público roleplayer – basta ver o sucesso de jogos como All Flesh Must Be Eaten, The Shotgun Diaries e Mouse Guard RPG. Recomendo fortemente a qualquer jogador ou mestre que deseje experimentar “algo novo” em sua mesa.

Imiril Pegrande

Anúncios

9 comentários sobre “Revisitando um Clássico: Castelo Falkenstein

  1. Já tive a oportunidade de jogar uma vez, e só posso dizer uma coisa sobre a experiência: sensacional! O autor é um gênio, tanto pela ambientação quanto pelo sistema de regras. Vale muito a pena conhecer melhor.

  2. Também já joguei e achei excelente o cenário. Na época eu era um moleque e não gostei do sistema de regras, mas hoje vejo como era inovador.
    Ler esse post foi nostálgico! Valeu pela postagem.

  3. Também cheguei a jogar 1 unica vez, mas a experiência não foi boa, como o Helton eu também era muito novo e o grupo inexperiente, não entendemos a real coisa do jogo, acho que meu mestre antigo ainda possui o livro e deve estar muito novo! ehehehee

    Mas jogaria novamente para revisitar o sistema e o cenário.

    Alguem se abilita a fazer uma mesa na livraria Feira do Livro?

    Abs

  4. Este é um dos melhores jogos e cenários e regras que já vi. Poucos RPGs se comparam. Contudo, apesar de possuir o livro, não tive oportunidade de testa-lo, pois acredito que meus jogadores possam não gostar do sistema.

    mas…

    há tempo… tudo tem seu tempo…

    Muito boa esta resenha, velho. A Vila do rpg está bem encaminhada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s