Conto: Doce por um segredo – Parte I

Cyberpunk 2020. Publicado no Brasil pela Devir.

Doce por um segredo é um conto ambientado no universo do RPG Cyberpunk 2020 publicado no Brasil pela editora Devir em 1996. Criado por Mike Pondsmith e outros para a R. Talsorian Games Inc.

Já sinto os cacos da janela do quadragésimo andar a atravessar o meu rosto enquanto o chão galopa em minha direção. O ar seria mais limpo e me sentiria um pouco melhor na direção da minha morte, senão fosse essa maldita e espessa camada de ácido B13 liberadas pela Dyn50 – motohover. Já há tantos na rua quanto aqueles bastardos da Drauzia CyMotors Inc puderam fabricar em tempos de recessão. O mundo indo ao inferno enquanto esses putos conseguem lucrar… Ótimo… Cinco segundos para o impacto… Onde estava mesmo? Ah, sim. Morrer!

7 dias antes…

Durante o show de alguns cromados eles se desvencilhavam entre a multidão, escapando de serem espetados pelas afiadas pontas de algumas moicanas – aqui e ali – com uma habilidade que eu realmente invejava. Nicko e Terry, dois dos atravessadores que já acompanhava a tempos, pelo palpitar dos meus instintos, esses dois estão de alguma forma ligado ao assassinato da jornalista Yvanda, e com certeza envolvidos com o tráfico de sintecoca. Quando longe da multidão próximos aos bastidores eles entreolharam e deram uma útima olhada discreta em volta – eu sabia que não iriam entrar se certificar-se de que eu ou alguém pudesse segui-los. Nesse ponto posso dizer que cada eurodollar valeu na compra desse sobretudo camuflável, no meio de tantas cores e estampas paramilitares veio bem a calhar a sua capacidade de assimiliar as cores e me deixar bem próximo do estilo destes malditos drogados.

Enquanto pressionava o contato na manga esquerda, aproveitei para fechar mais meus braços e cobrir minha gravata, e ainda levando ao rosto a mão direita encenei o acender de um cigarro. Cobrir o rosto, deixando somente os olhos a vista é um movimento tão básico que todo detetive deve sair do ventre de sua mãe fazendo. Isso mesmo, sou Ronald Tzura – detetive da policia de Night City.

Quando a porta se fechou atrás dos dois vermes aproximei-me da mesma, e o letreiro de vinil grudado na porta não dizia muito – “Backstage” – e não havendo motivos especiais para não seguir, eu o fiz. Assim que me deparei depois da volta uma escuridão tomou os cantos de meus olhos, toda a falta de luz do recinto contrapunha-se ao show cybertrônico lá fora; somente os feixes de luz caleidoscópicas que entrava entre as frestas de madeira do palco acima atingindo o chão de fuligem e ratos em decomposição. O cheiro não mais incomodava, afinal o que tinha por chamado de olfato se foi nas sufocantes caldeiras da cidade de Andaluz – isso é uma história para outro momento.

Segui o som do metal das correntes dos adereços contra os canos que formavam o corrimão da escadaria para um bunker sob aquele palco. Quando atingi a entrada a porta de metal não perdoou a virada de maçaneta e piou sala adentro, já não dava mais para contar com a minha furtividade, saquei a Federated Arms X-9mm – FeArX9, como gosto de chamar – do casaco na altura do meu peito esquerdo, e empunhando-a, segui dentro da sala com cautela – a última coisa que queria era morrer esfaqueado por um calhorda. A sala que se seguia era um conglomerado de cabos de cobre e tubulações de cabos ópticos, aqui e ali algum de transporte de líquidos – prefiro pensar em água – seguiam vez ou outra interrompidas por uma luminária de neon parcamente mostrando o caminho. Mesmo assim conseguia escutar os passos deles seguindo corredor abaixo. Eu não estava mesmo com sorte, apesar de todo o meu cuidado as poças dos líquidos que caíam dos canos formavam um resvalo ainda que minúsculo, mas o suficiente para quem possuísse implantes auditivos. Empunhei a minha amiguinha para a minha frente, quando o compasso de meu coração atingiu um ritmo único à minha respiração – pelo menos o datapersona mostrava tal – escutei o que parecia ser um choro baixo. Mais alguns metros e alcancei outra luminária, que peguei com a mão esquerda  e, soltando o meu punho direito, apontei para a origem do som…

Exótica MortaLá estava no canto choramingando uma exótica. Seus olhos brilhavam na escuridão em resposta a luz focada. Seus cabelos em tufos desciam em sua fronte em filetes empapados de suor e não havia mais sobrancelhas nela. Onde seria o seu nariz apenas habitam um molde de resina rasa, dando-lhes um aspecto cadavérico condizente ao seu porte mirrado. Vestida apenas da cintura para baixo, ela segurava na mão esquerda uma seringa hipodérmica de ar comprimido – a qual tentou esconder atrás de si. Paralisada, ela ficou a me observar. Minha reação em primeira instância era a de ignorá-la e seguir, mas em um mundo doentio como esse outra criatura a sofrer e amontoar-se nos becos da cidade não era bom para saúde pública, ou sinal de misericórdia de nossa evolução. Respirei fundo – ia precisa correr depois daquilo – e atirei diretamente em sua têmpora esquerda abrindo-lhes o caminho para o jorro de sangue. Caindo morta e sem muito protestar.

Eu sabia que o tiro os alertaria, então corri para em frente do corredor, já não me importando com o barulho. Mais um vez encontrei de frente com uma porta semiaberta de metal pesado, sob o seu arco apenas um lâmpada de emergência e uma música ao fundo – Merda! Nota mental, voltar para investigar o cadáver daquela exótica. Enfim, o bate estaca que se repetia vindo do além da porta, era abafado e se misturava às variadas vozes.  – Alguma reunião? Entrei devagar quando me deparei estava nos fundos do bar da rua oposta aonde nos encontrávamos durante o show dos cromados – para a minha sorte Nicko ainda diante do balcão principal falando com um ciborgue baixo de pele sintética morena e parte exposta, não notou a minha entrada, guardei a arma de volta, é fogo para o choo nestes locais. Sentei em uma mesa aos fundos de onde a visão era boa o suficiente para acompanhá-los. Ainda não sabia exatamente onde estava Terry e isso me deixava aflito. Preciso obter logo as provas e um terminal, depois poderia confrontá-los.

Era exatamente esse tipo de ambiente Yvana frequentava para encontrar suas fontes. Tenho de admitir agora que a garota era durona, ou perturbada demais para entender o valor da própria vida – O que eu poderia dizer agora se tivesse a par da lista de implantes dela? – Enfim, quieto estava e quieto fiquei, fiz poucos movimentos até mesmo para pedir minha bebida tensionei os músculos o máximo que pude para evitar espasmos – a droga do meu ombro não estava totalmente recuperado da substituição de chip do implante. Coçava e o calor daquele local aumentava a minha inquietabilidade. Mas foi então que Terry chegou acompanhado de um outro homem, em primeiro momento eu não o reconheci mas logo depois de algumas exasperações associei a pessoa aos gestos de um viciado conhecido: Douglas, câmera de Yvana. Ótimo! Agora não poderia sair daqui para não ser reconhecido por esse filho de uma p… Mas o que diabos ele está fazendo com aqueles dois? – pensei comigo.

Uma hora de conversa e os três decidiram partir, paguei discretamente a conta e os segui em distância segura pelas calçadas abarrotadas de pessoas, como sempre em Night City, dos mais variados esteriótipos doentes e cidadãos se trombavam nas calçadas procurando não olhar uns nos olhos do outro amarrotados do que poderia era chamada de cyberimplantes de ponta – uma busca daquilo que um dia foi chamado de espiritualidade pela humanidade aplicados a tecnologia – você é um de nós ou você não é ninguém: o novo prisma social. Novo?

Facilmente eu os alcançaria. Dessa vez eles estavam bem mais lentos do que no show, talvez para que Douglas pudesse segui-los e mais de 10 quadras depois no inicio zona industrial eles entraram em um beco à esquerda. Apressei o passo, eu sabia o que significava aquilo – menos Douglas. Infelizmente não fui rápido o suficiente. Ao passo que me localizava a oito metros do beco dois flashs surgiram. Eu corri e encontrei ao entrar no beco: Douglas com dois grandes novos buracos na cabeça. Os sujeitos devem ter usado algum calibre grosso, uma vez que a cabeça estava grudada a parede junto de algumas fibras implantadas, todas em uma pasta homogênia de miolos e tecnologia.

Antes de comunicar o fato aos legistas, aproveitei para vasculhar as posses do Douglas, que trajava um jaqueta negra de fibra sintética autotérmica, uma moletom com capuz cinza, calças jeans rasgadas à altura do joelho e uma bolsa lateral, que em sua aflição suas mãos grudaram, ao que parece, tentando impedir de levarem. Obviamente não daria tempo o suficiente de analisar tudo com calma naquele beco imundo, e tão pouco conseguiria permissão de o fazê-lo na estação. Retirei-a e sob o meu sobretudo ela ficou junto ao meu corpo – a bolsa tinha um cor verde oliva camuflada e com estampa militar, o sobretudo assumiu esta cor…eu havia deixado ligado a camuflagem? – ao menos ficou bem; boa, Douglas! Boa! Saí do beco e enviei a mensagem à central, segui na mesma calçada em direção a central, mas antes…um party time no caminho, La Bulba!

Como o de costume cheguei no cabaret La Bulba e entrei sem ser questionado pelo leão de chácara – Turtulio, apesar de que a minha presença havia o deixado mais inquieto do que o de costume. Sentei-me à mesa 42 e pedi o que mais me interessava naquele local: comida. Sim, apesar das atenções serem focadas nas prostitutas do local, o que formentava a minha visita é basicamente a cozinha de um grande amigo de infância: Louis “Vitela”.

Sentado naquele acolchoado vermelho pus as mãos sobre a mesa de mármore – coisa rara – e coloquei a bolsa de Douglas sob os bancos ao meu lado direito encostada à parede. Tudo que eu pude tirar de dentro dela joguei sobre a mesa. Haviam poucas coisas além das tralhas – que mais parecia pertencentes a uma criança: sacos de chiclete, cartões ilustrados, clips, uma máquina de filmagem portátil, um pequeno notebook e uma outra caixa feita de ébano, parafusada com titânio – nunca havia visto uma assim pessoal, apenas em filmes obscuros de um passado distante, nem mesmo me lembro o nome daquilo, tomei outra nota mental de ligar para Kantra – amigo do departamento apaixonada por esse tipo de filmes, talvez ela possa me lembrar o nome. O notebook não informava nada fora do comum, algumas pastas codificadas que hei de levar para alguns netrunners depois, a filmagem já mostravam coisas interessantes:

 Uma mulher de seus aproximados 30 anos surgiu na tela de jaleco branco, um amplificador visual sobre a retina e uma expressão de cansaço. Os indicadores da bateria estava cheio. Quando ela informa: “Bem, o progresso foi excelente, dessas trinta horas de trabalho consecutivo conseguimos amplificar o espectro de atuação do aplicador cibernético Bakuna. Os efeitos colaterais ainda não foram relatados por completo, alguns dos quais ainda tememos ser irreversíveis. Estamos estudando uma forma de amenizar essa informação aos selecionados.” Um grito estridente rompe a narrativa da mulher que desvia o olhar da câmera para continuar:

“Segure-a! ISSO VAI PASSAR! Acalme-a! Injete logo o metalina! Rápido! Não seja idiota, ela não tem essa força toda! Claro! É um modelo estético, representativo e não de carga!” A imagem cessa… Poucos segundos depois de um tela chiada e mulher reaparece na tela: “A cobaia foi desativada… Falhamos neste Teste… Precisamos…” A imagem some outra vez.

Avancei a filmagem à procura de outras imagens, mas as únicas encontrei foram por volta de 5 segundos. Parte delas mostravam aquela caixa de ébano, outra parte mostrava Terry e Nicko conversando com aquela mulher. E nada mais é encontrado de imagens naquela câmera. Ao que tudo parece, a máquina de filmagem também pertencia a uma empresa, já que a serial seguia um padrão diferente do mercado não corporativo, eu teria ainda mais trabalho de rastrear aquilo. Mas e essa caixa?

 Enquanto puxava para si, a minha refeição foi servida por Krya, uma oriental que conhecia bem durante esses anos no cabaret. Enquanto a mesma organizava os pratos sobre a mesa, uma criança saiu por detrás da garçonete e pulou para a cadeira à minha frente, Suzy era o nome dela, filha de Krya que por vezes acompanhava a mãe durante o serviço por não ter onde ficar. Krya exasperou e gritou com a garota que parecia ter seus dez anos de idade, pediu-me desculpa pelos modos da filha, que só manteve-se na sua calma por mais dois minutos até que pegou a caixa de ébano de sobre a mesa e puxou para si com um sorriso entre os dentes e os olhos arregalados de curiosidade:

 – O que é isso?

Mesmo antes que eu pudesse responder ou tomar de sua mão, ela foi tateando a caixa e no que podia pressionava com os dedos, sacudindo-a. Até que parou com um tique que a caixa fez. Ambos ficamos parados olhando para a caixa, até que a garota a soltou e ficou com um sorriso maroto olhando para o nada, o impacto do caixa ao mármore foi contundente mas não afetou-a fisicamente. A garota, por outro lado:

 – Mamãe? O papai sempre me leva para ver sua amigas! E elas gostam tanto do papai que os tratam igual a você? O papai tem outras namoradas?

Esse foi o mesmo momento que Krya ficou estática olhando para a filha que em seguida se levantou e saiu correndo porta afora. Krya correu atrás da filha, e eu a segui por puro instinto. Mas todo o momento foi marcado pelo o fim trágico da garota contra as rodas do veículo de transporte dos ciborgues desativados que naquele exato momento atravessava a frente do La Bulba. Krya soltou um grito abafado, e ajoelhou-se diante daquilo o que foi sua filha um dia, um emaranhado de fios, chips e uma pasta orgânica.

To be continued...

Edward “Toy” Facundo

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7 comentários sobre “Conto: Doce por um segredo – Parte I

  1. Cyberpunk é vida.
    Sci Fi é vida
    Imaginação é vida… vi um filme inteiro lendo esse conto.

    Valeu Toy.

  2. Adorei o conto! Li sem parar! Senti como se estivesse vendo um filme. Adorei os detalhes… Aguardo a continuação… 😉

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