Gibiteca da Vila: Blame!

– De onde você veio?
– De baixo… mais de 5.000 níveis.
– Não pode ser, não existe um lugar tão longe.

Blame! Tsutomu Nihei.

Há alguns anos conheci o trabalho de um artista que realmente me surpreendeu. A HQ era um curta do Wolverine intitulado Snikt! A revista em questão pareceu ser uma tentativa (um tanto quanto bizarra) da Marvel de conseguir mercado entre os fãs de mangás (quadrinhos japoneses). Na história Wolverine é arrastado para dentro de um universo paralelo, ou futuro distante, e vê-se às voltas num ambiente cyberpunk – realmente muito PUNK. tendo que enfrentar um exército de criaturas biomecânicas que queriam aniquilar a humanidade. A história, apesar de interessante, nada tem haver com o mutante mais famoso do planeta e, portanto, a revista recebeu críticas severas dos fãs e foi mal recebida. Por outro lado a arte totalmente dark e suja de Nihei cativou-me na primeira espiadela que dei no exemplar e, claro, fui imediatamente catar mais coisas sobre o cara e sua obra. O que encontrei foi uma preciosidade do gênero cyberpunk: Blame! Adventure Seeker Killy in the Cyber Dungeon.

Enredo

Num futuro distante os seres humanos foram extintos e o mundo tornou-se um cenário apocalíptico devastado, mega complexos preencheram toda a superfície do planeta, obliterando toda a natureza – montanhas, rios, mares, etc. Esses complexos foram construídos e são reparados e aperfeiçoados constantemente por robôs autômatos e sem controle. Nesse lugar o que impera é a lei da sobrevivência. Os poucos seres vivos, transhumans (humanos com DNA alterado que sobreviveram à extinção), amontoam-se em favelas hightech ou cidades de estrutura quase alienígena. Sobrevivendo com a tecnologia que puderem encontrar e tendo que enfrentar terríveis desafios dentre os quais estão mutantes e criaturas medonhas frutos de experimentos genéticos e evoluções bizarras, as “almas de silício”, seres biomecânicos criados para caçar a espécie humana e mais uma enorme gama de intempéries e insanidades. Uma maravilhosa mistura de Mad Max, Hellraiser e Alien o 8º Passageiro!

Durante a aventura, o protagonista, Killy, munido com uma arma especial chamada de emissor de feixe gravitacional (que deixa kamehamehas, leiguns e hadoukens no chinelo) luta para encontrar um gene humano perfeito, o Net Gene Terminal. Com isso, o grupo do qual ele faz parte tem esperanças de reconectar um usuário à Rede (Netsphere) e por um fim ao caos que ameaça levar o mundo à destruição. Durante o enredo – denso e complexo – ele encontra aliados e inimigos, traição e desespero, e muitas, muitas revelações e reviravoltas maravilhosas.

Killy empunhando o devastador Feixe Gravitacional.

Produção

O trabalho de Nihei é de tirar o fôlego; ele usa e abusa da sua formação acadêmica em Arquitetura. A amplitude e o nível de detalhamento do trabalho do cara são fantásticos. Sombra e profundidades são exploradas ao máximo em quadros que mostram a grandeza das estruturas visitadas por Killy durante sua saga. Lembra muito os trabalhos vistos em Cthulhu Tech (RPG que mistura a mitologia lovecraftiana com ficção científica) e em Dark Heresy (RPG de Warhammer 40k).

Blame é dividido em 10 volumes, subdivididos em pouco mais de 60 logs (capítulos), publicados originalmente em 2003 no Japão. Infelizmente, ainda não foram publicados na Terra Brasilis, mas existem edições nos EUA, Espanha, França e Itália, neste último foi publicado pela Panini Comics, o que deixa mais perto o sonho de ver a obra publicada por aqui. Conseguir os originais foi tarefa hercúlea (e olha que tenho parentes próximos morando na Itália), mas a web está repleta de coisas sobre esse maravilhoso trabalho.

A leitura do material é maravilhosa: pouco texto e páginas e mais páginas de pura arte onde apenas vemos Killy andando sem rumo através das miríades de salões e corredores gigantes, perdido em seus próprios pensamentos e fazendo-nos perder em nossos próprios sonhos e divagações. Blame! também ganhou sete curtas animados bastante fiéis que resumem a obra e dão uma idéia muito boa do cenário. Você pode conferir no YouTube  todos os episódios do anime, pra ter um gostinho do cenário de Blame! Outras obra de Nihei incluem: Noise (uma espécie de OVA que serve de prequel para Blame!), Abara, Biomega (que possui várias referência a Blame!) e Knights of Sidonia.

Uma longa e solitária jornada através dos túneis... e também dos próprios pensamentos...

No RPG

Leitura obrigatória para qualquer narrador do gênero cyberpunk e muito mais para quem deseja narrar em ambientes como Dark Heresy ou Cthulhu Tech. Apesar da complexidade do enredo e do pouquíssimo texto presente nos mangás, Blame! tem em suas páginas material mais que suficiente para ser facilmente adaptado para Daemon, GURPS ou M&M.

A proposta apresentada no conceito da Rede (NetSphere) em Blame! também pode ser facilmente adaptada e utilizada em aventuras do gênero. No cenário a rede tornou-se uma extenção da própria realidade. Uma vez que os elementos químicos  (orgânicos e inorgânicos) passaram a ser interpretados como um tipo de informação as Inteligência Artificiais desenvolveram metódos de reescrever a matéria, remodelando-a para criar estruturas e criaturas novas a partir de qualquer tipo de elemento químico disponível numa área que seja tocada pela NetSphere. O resultado são colunas e blocos de pedra dando origem a criaturas biomecânicas e outras formas monstruosas; além de criaturas que existem em dois níveis de realidade: uma física e material e outra que exite apenas no mundo virtual – muitas especulações acerca da alma, do que de fato é realidade, existência e a vida.

É isso ai chombata! Recomendo fortemente a leitura de Blame!

Imiril Pegrande

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Um comentário sobre “Gibiteca da Vila: Blame!

  1. Mestre, Allan!
    Finalmente assisti as animações e quão acuradas foram suas classificações no email avulso. Me apaixonei pela ambientação, funcionam como epílogos. Agora estou curioso quanto ao mangá.

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