¡Niños! – Jogando com crianças

Qualquer camarada que queira receber o honroso título de Nerd precisa ter em sua coleção – entre Curtindo a Vida Adoidado e De Volta para o Futuro – os filmes Os Goonies, Te Pego Lá Fora e Deu a Louca nos Monstros. Afinal, quem nunca imaginou personagens icônicos como o Sloth ou quem nunca quis dar um chute no saco do Lobisomem?

O que esses filmes tem em comum é que são protagonizados por crianças e/ou pré-adolescentes. A cultura pop sempre esteve repleta desses pequenos heróis – Harry Potter e Cia, além Yusuke, Naruto e Goku (e quase todos os protagonistas de anime), sem esquecer-se dos icônicos Hank, Erik, Presto, Bobby, Diana e Sheila (do clássico Caverna do Dragão). Parte disso deve-se ao fato do autor ter que atingir determinado público alvo ou à necessidade de encaixar a obra dentro de certa faixa etária para fins de classificação e/ou censura, como fez Tolkien ao adaptar O Hobbit para uma linguagem mais infantil, tendo em vista conseguir publicar O Senhor dos Anéis. No entanto, essas necessidades comerciais acabaram por criar um gênero específico e hoje ele tem público certo que, aliás, vai bem além do público infanto-juvenil ao qual é, a princípio, destinado.

Por conta disso, recentemente, tem chegado às telonas uma grande variedade de filmes muito bons que são fonte de inspiração certa para o tema – além de garantirem boas horas de gargalhadas. Podemos destacar: A Casa Monstro (animação muito boa feita com elementos extremamente sofisticados para captura de imagens a partir de atores reais); Horton e o Mundo dos Quem! (uma das melhores animações já produzidas desde A Era do Gelo, troque o elefante por um garoto de seis anos e pronto, está montado o cenário); Coraline e o Mundo Secreto (baseado na obra de Neil Gaiman, essa animação está no meu Top 10 de filmes, fortemente recomendado); O Mundo Encantado de Gigi (menos conhecido essa animação é RPG puro) e Toy Story 3 (dispensa comentários né?). Nesse gênero, além do tipo de herói “Super-Adolescente”, que apesar de serem crianças possuem atributos de adultos (para fins de mecânica em um sistema de RPG), encontramos um tipo de aventureiro tão famoso quanto: os Dreamers.

Dreamers são personagens, geralmente crianças, que invocam o poder de seus sonhos ou imaginação para viver aventuras espetaculares dos mais diversos tipos, e por falar nisso, RPG não é exatamente uma forma de continuar a fazer isso depois de barbado? São exemplos desse arquétipo de protagonista: Charlie Brown (dos Peanuts/Snoopy – Charles M. Schulz), Calvin (do Calvin & Haroldo – Bill Waterson), Bob (O Mundo Fantástico de Bob), Doug Funny, e, porque não, toda a famosa Turma da Mônica, de Maurício de Sousa – ou você vai mesmo querer me convencer de que nunca leu nada do Cebolinha, Cascão ou Chico Bento? Ah tá, sei…

Por tudo isso, o post de hoje traz à luz um tipo diferente de aventura e aventureiro: as crianças! Num universo repleto de bárbaros, elfos, demônios, super seres, aliens, vampiros e mais um infinito número de personagens vivendo em seus respectivos universos e cenários de campanha só existe um lugar onde podemos encontrar todos eles juntos: numa mente infantil (ou numa mesa de GURPS, mas não conta nesse caso). São das crianças e das obras infantis os mais alucinados universos de campanha jamais sonhados e em alguns deles, pode acreditar, o Tarrasque borraria as calças. O RPG já possui alguns títulos que abordam os variados gêneros infantis aventurescos (e são vários). Para mencionar alguns que são dignos de nota, temos:

World of Darkness: Innocents

Crianças diante dos horrores ocultos do Mundo das Trevas...

Este suplemento traz as crianças para dentro do Mundo das Trevas. Publicado em 2008 pela White Wolf o livro tem o mesmo acabamento e diagramação dos outros títulos do selo WoD e, portanto, é um espetáculo para os olhos. Antagonitas, cenários, monstros, NPCs, tudo à diposição e prontinhos para o jogo, sem necessidade de adquirir nenhum dos outros livros do Mundo das Trevas. Se os horrores ocultos do Mundo das Trevas já metem medo em qualquer homem crescido, imagine o horror que uma criança enfrenta ao se deparar com vampiros, lobisomens, fantasmas, zumbis e todo tipo de criatura nefasta que habita os cantos escuros do mundo.

Com o sistema igual ao do WoD (o famoso Dramatic System) essa pode ser uma boa opção para quem quer experimentar o gênero e domina bem o inglês. Infelizmente, o título, por tratar de um tema específico demais do WoD, nem de longe é prioridade para a lista de tradução da Devir, que ainda está finalizando os módulos básicos da linha WoD. O livro pode ser adquirido na Moonshadows por cerca de R$ 110,00, mas atualmente está esgotado.

Grimm

Contos de fadas? Você nem imagina...

Grimm é um RPG publicado originalmente pela Horizon com regras do D20 System onde os personagens são crianças que se aventuram nas Grimm Lands. Uma espécie de mundo onde os contos de fada são, na realidade, contos de horror. O universo é baseado – como indica o título – nos contos infantis criados pelos irmãos Grimm, dentre outros igualmente famosos.

O cenário é bem rico e explorado. Existem regras para Imaginação (mágicas feitas pelas crianças, muito criativas por sinal) e vários Feitos exclusivos para esses pequenos campeões (inclusive o famoso Chute no Saco do Lobisomem – com direito a uma bela ilustração). Outra coisa bem legal no livro são as classes, bastante inspiradoras e icônicas: Bully, Dreamer, Jock, Nerd, Normal Kid, Outcast e Popular Kid. O livro é muito bem ilustrado e diagramado, excelente fonte de referência até pra quem não curte o gênero.

Atualmente é vendido unicamente em formato pdf pela Fantasy Flight Games (a mesma do surpreendente Dark Heresy) e teve seu Core mudado para um Sistema semelhante ao D6, ainda não vi esse exemplar, mas o preço anda meio salgado pra um bagulho que é digital (U$ 49,90!!! no site da Fligth Fantasy e U$ 20,00 no DrivethruRPG).

Little Fears

It is... Child's Hell.

Esse é um RPG bastante curioso e que certamente vale a pena ter na coleção. Diferente do Grimm, onde o horror é um tanto quanto fantástico e infantil, Little Fears – publicado e escrito por Jason L Blair – é um bocado adulto. Ele transforma todos os medos infantis em criaturas realmente pavorosas que fariam o próprio PinHead parecer um bichinho de pelúcia. Nas palavras do próprio autor: “It is… a child’s Hell”. Se você acha que é machão e corajoso, que já enfrentou de tudo numa mesa de RPG, que Antedeluvianos e demônios de dois mil anos são o que há de pior no universo e que Lovecraft é bizarro, espere só até jogar uma aventura desse jogo. Little Fears pode ser adquirido em versão impressa e pdf no site feito pelo autor www.littlefears.com, por U$ 30,00 (pacote incluindo a versão impressa e a pdf).

Bom, mas e por aqui na Terra Brasilis o que temos do gênero? Bem, publicado de forma oficial, infelizmente nada (que surpresa…). Por outro lado, temos maravilhosas fontes de pequisa e um acervo bibliotecário que serve de fonte de idéias para inúmeras aventuras do  estilo, só pra citar alguns: vários livros da Coleção Vagalume (alguém lembra deles? Eu ainda tenho O Menino de Asas, o Escaravelho do Diabo e A Droga da Obediência na minha estante); a obra do gênio Monteiro Lobato, Sítio do Pica Pau Amarelo; além das traduções de grandes obras extrangeiras como o maravilhoso História Sem Fim, de Michael Ende e o recentemente aclamado As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis.

Qualquer uma dessas obras pode facilmente ser adaptada a qualquer Sistema disponível, Daemon, GURPS, M&M, D20 e outros, para narrativas com heróis crianças. É bem verdade que dificilmente uma aventura desse gênero possa durar mais que uma tarde ou, quando muito, um punhado de sessões. Portanto, esse tipo de aventura destina-se mais a uma aventura de fim de tarde ou algo pra quebrar o gelo quando todo mundo está farto de conspirações, estratégia e planejamento. Quando os jogadores e o narrador querem apenas relembrar bons tempos e dar boas gargalhadas, bolando planos pra ferrar com o valentão da escola, ou matar aula,  disputar um pega com carrinho de rolimã ou como roubar os biscoitos na cozinha.

Mas agora, como sempre tento trazer uma luz sobre trecos desconhecidos ou esquecidos, deixo pra vocês um presentão: o RPG ¡Niños!

¡Niños! El Juego de Rol de los Niños de Goma

Capa do módulo básico. E aew, pronto pra se aventurar?

Esse pequeno manual (12 pgs.) escrito e bem ilustrado por Francisco Franco Garea e publicado sob a licença Creative Commons (Reconocimiento-No comercial-Compartir bajo la misma licencia 2.5 España) foi originalmente publicado em 1995 como brinde numa extinta revista Espanhola especializada em RPG e coisas nerds, chamada Líder. Traz regras para um jogo com niños (crianças, em espanhol). O livreto, também em Espanhol, foi posteriormente tornado público pelo seu autor e traz regras simples para criar e jogar com personagens realmente bem infantis (como Charlie Brown, Calvin ou Bob) que se aventuram em “missões” realmente hilárias. O autor, ao invés de sugerir idades, usa como parâmetro a série escolar dos personagens, sendo algo entre o 1º e o 6º Ano o mais recomendado pelo livro, que seria algo entre 04 e 10 anos. Para se ter uma ideia algumas das opções de aventura disponíveis no livro são: Assalto à Propriedade do Vizinho – onde os heróis têm que ousadamente invadir o quintal do terrível senhor Hermenegildo Cachoburro para recuperar os brinquedos que nunca são devolvidos pelo velho ranzinza depois de haverem acidentalmente caído ali durante os jogos – e A Porta Misteriosa – na qual os pequenos aventureiros devem espreitar o que existe além de uma misteriosa porta na escola.

Tudo no livro é infantil e divertido, desde a criação dos personagens – que possuem atributos como Malandragem (uma medida de quão inocente você consegue parecer depois de praticar um malfeito), Ser Encantador / Ser Odioso (que serve para manipular os adultos e fazê-los trabalhar para você) e Pontos de Mãe (utilizado para invocar o adulto responsável por você pra te ajudar a sair de uma enrascada ou de alguma outra dificuldade). O sistema é muito simples e usa apenas dados de seis faces, onde uma determinada quantidade de números pares deve ser atingida para se obter sucesso (a mecânica lembra um pouco Terra Devastada, que você já conferiu aqui no blog). Você pode fazer o download gratuito do manual de ¡Niños! clicando AQUI.

E agora, pra fechar o post com gosto de chiclete Ploc, nós preparamos um pequeno suplemento pra você inserir regras de imaginação à sua aventura de ¡Niños! e tornar sua mesa ainda mais divertida e fantástica. Clique em Niños-Imaginação e confira!

É isso aí niño. Cuidado para não ser pego!

Imiril Pegrande

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8 comentários sobre “¡Niños! – Jogando com crianças

  1. Muito bom o Post Imiril! A cada frase dita relembrei meus tempos de criança NERD com todos os filmes, desenhos animados, HQ, jogos de video games, etc. Sua sensibilidade com assunto nos mostra que foi uma época bastante importante pra você e felizmente passou muita sinceridade nas palavras. Valeu pelo Post e adiantando um pouco, essa semana o Dica de Fim-de-Semana é sobre esse tempo tão bom que nunca mais vai voltar, a não ser em uma mesa de RPG com todos essas dicas de nostalgia infaltil. Abraço.

  2. O Tarrasque usa calças?! – brincadeira.

    Devemos reconhecer um belo post quando lemos um. Parabéns pela qualidade, Imiril! As dicas são muito úteis e, pelo menos para mim, inovadoras!
    Como professor, estou sujeito a lidar com adolescentes e – gulp! – crianças. Quem sabe testar roleplaying com eles não seja frutífero?

    1. Vlw Helton!

      Eu tb lido bastante com crianças e sei como é difícil. De antemão te digo que o Niños foi bem aceito… Embora eles ainda estejam preferindo M&M… acho que é pq foi o primeiro RPG que mostrei ao grupo.

      Estou ansioso pelo post hein mestre Marzeu!

      Abraços a todos.

      1. Estamos aqui no evento Praça da Leitura (em Paracuru) e tem uma criançada grande. Garotada de menos de 10 anos. Infelizmente tive contato com o Niños! apenas em cima da hora, mas vejo que seria o sistema ideal para jogar com essa criançada toda. Comc erteza vou tentar usá-lo com meus alunos em breve!

  3. Mestrei para duas mesas com cerca de 10 crianças em cada no último fim de semana, e narrei algo bem parecido com ninõs, e foi muito bom! A molecada vibrava a cada cena e desafio. Muito legal.

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