Resenha: Abismo Infinito, um jogo narrativo de horror no espaço

Já faz algum tempo que eu não posto resenhas aqui no Vila do RPG, não é mesmo, camaradas? Pois hoje vou começar a reverter essa situação, inaugurando uma nova safra de análises do mais variados sistemas. O jogo escolhido para a resenha do post de hoje foi Abismo Infinito, a nova criação (que em breve será publicada pela Retropunk) de nosso parceiro John Bogéa, autor do RPG brazuca de apocalipse zumbi, o Terra Devastada – que, inclusive, já foi matéria de vários posts aqui o blog (Terra Devastada lança nova versão de testes, Resenha: Terra Devastada – Resumo de Regras, Terra Devastada: Personagens Prontos Parte 1 e Terra Devastada: Personagens Prontos Parte 2).

Horror cósmico inspirado no poema “Nêmesis” de H.P. Lovecraft

Abismo Infinito nasceu como um projeto de John Bogéa para concorrer no concurso de criação de jogos originais “Faça Você Mesmo”, promovido pela editora Secular Games há alguns meses. Como o próprio Bogéa disse em seu novo blog, o Sala 101, “Foram cerca de dois dias e meio na frente do computador, regado a inúmeras canecas de café, escrevendo, pesquisando, desenhando, pensando e repensando coisas. A epifânia veio quando lembrei de um poema perturbador (e muito foda) de H. P. Lovecraft.” E assim Abismo Infinito veio à luz!

Quando: o ano de 3362. Onde: o planeta Autoctonia. No quarto milênio, a humanidade  cresceu além do controle e explorou todos os recursos naturais da Terra, deixando o planeta poluído e à mercê de todo tipo de catástrofe natural. Para tentar salvar a humanidade de seu destino catastrófico, a nave Prometheus-3 foi enviada em uma expedição científica ao planeta Autoctonia, o único conhecido que pode abrigar a vida humana além da Terra. Os seis tripulantes passaram os últimos quatro anos em câmaras de animação suspensa, dormindo enquanto a nave cruzava uma ponte infra-universal até chegar ao seu destino final. Quando o sono termina, o pesadelo começa…

Os jogadores devem interpretar os seis membros da tripulação da Prometheus-3 (cientista, engenheiro, médico, navegador, segurança e videomaker), recém-despertos após um sono profundo que durou quatro longos anos. Depois de todo esse tempo a mente dos persoangens já se habituou tanto com os sonhos que resiste a voltar à realidade. O resultado disso é a mescla do mundo onírico com o mundo real, onde as fronteiras entre um e outro se mostram cada vez mais confusas e incertas. Em resumo, a própria mente dos personagens é sua maior inimiga, trazendo à tona seus piores e mais ocultos medos na forma de bizarras e monstruosas alucinações tão vívidas que são capazes de matar.

O cenário de Abismo Infinito é descrito de forma direta, porém resumida (propositalmente), deixando espaço para a criação do narrador. A projeção do planeta Terra feita por Bogéa é verossímil e aterradora, demonstrando um quadro de crise extrema, onde flora, fauna, clima e água estão tão deteriorados que a vida se sustenta a muito custo. A nave Prometheus-3 também ocupa uma parte do capítulo destinado à descrição do cenário, tendo seus compartimentos detalhados (e possuindo até um mapa), caso o narrador queira conduzir suas histórias à bordo. Finalizando essa seção, somos apresentados ao planeta Autoctonia, futuro lar da humanidade e possível fonte de todos os pesadelos e alucinações dos personagens…

A criação dos personagens segue uma mecânica extremamente simples. Cada jogador dispõe de 60 pontos de gênese, que devem ser gastos para comprar os  dois atributos básicos – Habilidade (capacidade física) e Conhecimento (capacidade intelectual) – e as Âncoras (motivações do personagem). Temos como atributos secundários Sonolência (distância entre sonho e realidade), Medo Particular (maior temor do personagem) e Ferimentos (medida de saúde). Os valores de sonolência e Medo Particular iniciam em 3, e para cada ponto adicional que o jogador comprar, adquire 3 pontos de gênese adicionais (até um máximo de 30). Cada personagem deve possuir ainda uma Citação, um descritor “curto e grosso, que reflita sua filosofia de vida.”

O sistema de jogo é que podermos chamar de “elegante”, com regras simples e objetivas. Todos os conflitos são resolvidos através da jogada de 2d6+HAB (para testes físicos) ou 1d6+CON (para testes mentais), contra uma dificuldade que varia entre 3 e 12, de acordo com a complexidade e dificuldade da tarefa em questão. Caso o teste seja realizado contra outro personagem (do jogador ou do mestre), o alvo tem direito a um teste de reação que segue a mesma mecânica (2d6+HAB ou 1d6+CON). Os valores devem ser comparados e o mais elevado é bem-sucedido em sua tarefa. É claro que existem complicações que podem conceder bônus ou causar penalidades nos testes. Algumas são previstas pelo livro, mas elas são poucas e não entravam o andamento de uma sessão, algo extremamente valioso em tempos de sistemas que possuem centenas de regras e variantes…

Por último temos as regras referentes ao elemento central de Abismo Infinito: as alucinações. A aparência de tais manifestações oníricas seguem um padrão baseado no Medo Particular de cada personagem: se seu personagem tem medo de alienígenas, com certeza será visitado por seres espaciais, ou terá visões envolvendo o fim da Terra, caso tenha medo de nunca mais ver seu planeta natal de novo. A intensidade e poder das alucinações são diretamente proporcionais ao valor de Medo Particular e Sonolência do personagem: sua HAB equivale à Sonolência, CON à Sonolência/2, causa dano igual a Medo Particular + 1d6 e suportam até Medo Particular pontos de dano. As alucinações são temporárias (apenas 2d6 turnos), mas enquanto estão ativas podem atingir tanto a mente quanto o corpo dos personagens.

Podemos dizer que Abismo Infinito é um RPG de temática complexa. Um jogo voltado para o público adulto, que oferece novas e interessantes abordagens de nosso hobby. Para aqueles que procuram uma alternativa aos cenários já “manjados” que temos aqui no Brasil, com certeza é uma ótima opção. Sua fórmula nos permite notar as influências do poema de Lovecraft e filmes com Enigma do Horizonte, Pandorum e A Origem, mas de uma maneira que a originalidade se sobressai, gerando uma obra que realmente vale à pena nossa atenção. Se você se interessou pela temática do jogo, sugiro veementemente que faça o download da versão disponibilizada pelo próprio John Bogéa. É só clicar na imagem abaixo e mergulhar nos pesadelos de Abismo Infinito, mas cuidado para não se perder entre o real e o onírico…

Baixe agora e se atreva a explorar os limites entre o sonho e a realidade!

Dmitri Gadelha

Mergulhando de cabeça na imensidão obscura desse abismo!

Anúncios

6 comentários sobre “Resenha: Abismo Infinito, um jogo narrativo de horror no espaço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s