Fritz Leiber: Sword & Sorcery que inspirou D&D

Se alguém lhe perguntasse qual foi o autor que mais influenciou o processo de criação do primeiro jogo de RPG do mundo, Dungeons & Dragons, você certamente responderia sem hesitar: Tolkien! Não estou certo? Porém, por termos no Brasil, menos contato com obras de fantasia que em outros países, como Estados Unidos e Inglaterra, acabamos tendo, consequentemente,  menos contato com outros autores que, sim, influenciaram bem mais Gary Gigax e Dave Arneson a montar o conceito de fantasia medieval em seu jogo de interpretação. E o principal destes é Fritz Leiber. Segundo o próprio Arneson, em diversas entrevistas, Leiber e sua obra de fantasia foram bem mais influentes para a formação do conceito estabelecido na criação de Dungeons & Dragons, que qualquer outro autor. Traços da literatura de Tolkien também são evidentes no jogo, mas quando se conhece a essência das ambientações do autor americano, se pode enxergar claramente as fortíssimas bases emprestadas por Leiber para o primeiro cenário de campanha do RPG mais popular do mundo, Greyhawk. Isso acontece porque o D&D foi, em seu início, claramente mais influenciado pelo gênero sword & sorcery, que tinha como grande nome o autor aqui analisado por nós, do que pelo high fantasy, praticado por Tolkien. Os dois foram muito importantes, sem dúvida, neste processo de formação, acontece que em seu início, a fantasia medieval implementada nos jogos de interpretação era bem mais voltada para o herói que para o mundo de campanha. E neste conceito, o primeiro gênero citado era infinitamente mais rico e cheio de possibilidades.

Lankhmar - City of Adventure. Cenário de D&D adaptado da obra de Fritz Leiber.

Fritz Leiber foi um grande nome de seu tempo. Nascido em 1910 nos Estados Unidos, começou sua carreira em 1939. Escreveu fantasia, horror e ficção científica. Foi juntamente com Robert E. Howard, criador do personagem Conan: o Bárbaro, e grande influência. Criador do gênero conhecido como espada & feitiçaria. A partir de 1965 adotou em suas obras conceitos estabelecidos por Joseph Campbell em seu livro O Herói de Mil Faces. Suas grandes influências, além do já citado Howard, foram H.P. Lovecraft e Robert Graves. Acontece que, em meados do fim da década de 70, quando Gigax e Arneson, criaram o RPG, Fritz Leiber já era um cultuado autor de fantasia e literatura fantástica. Escritor da mais famosa revista especializada nestes gêneros dos Estados Unidos, a Weird Tales, o autor já tinha estabelecido bases firmes que seriam bastante utilizadas na criação de Dungeons & Dragons. A mais importante destas obras seria The Swords of Lankhmar (1968), tanto que anos mais tarde a cidade foi adaptada como cenário de campanha para D&D pela TSR, empresa responsável pelo jogo. Foi nesta obra que primeiro apareceram aspectos que, mais tarde, se tornariam tradicionais nos cenários de fantasia: guildas de ladrões, grupos de heróis em busca de aventuras, subterrâneos infestados de criaturas malignas, tavernas lotadas com música, cerveja e oportunidades de conquistas, além de várias outras características. Como podem perceber, nas páginas das obras de Leiber, surgiram diversas características intrínsecas ao conceito fantasia medieval. Porém, esta não foi a única obra a dissertar sobre o tema. Sword and Deviltry (1970), Swords Against Death (1968) e The Knight an Knave Swords (1988), também são excelentes exemplos de obras que ajudaram a estabelecer o conceito adotado no primeiro jogo de interpretação.

Livros que já eram Dungeons & Dragons antes mesmo do jogo existir!

Se você esta familiarizado com obras modernas de fantasia, como os romances de Dragonlance (Margareth Weis e Tracy Hickman) e Forgotten Realms (R.A. Salvatore), poderá ver claramente a influência de Fritz Leiber e como as características básicas do gênero são aplicadas sem que se percam a magia e o espírito de aventura. Suas histórias são ágeis, cheias de elementos de aventura onde magos diabólicos convivem com belas princesas e lutam por grandes reinos encantados, guerreiros manobram suas espadas com uma perícia sobrenatural, nobres corruptos buscam poder a todo custo e tudo isso com uma pitada de humor particular. em seu cânone literário, o herói foi definido em seus fundamentos modernos. Claro que ainda influenciado pelo fantásticos dos mitos e lendas  da antiguidade, porém, com mais personalidade e cientes de sua posição no mundo. Para estes heróis, a aventura, ou coisa a ser conquistada, era o mais importante. Sua personalidade desbravadora e corajosa era definidora do universo que o cercava. Leiber trabalha muito com a ideia do desconhecido sendo desbravado, enfrentado pela impetuosidade do herói. Fato contrário ao da literatura fantástica tradicional onde o acontecimento sobrenatural é temido. Ao modelo do poderoso Conan, os personagens de Fritz Leiber parem em busca do perigo e de emoções, ao contrário dos heróis do gênero high fantasy, que são simplesmente jogados em um contexto desafiador, contrário a sua vontade, como Bilbo Bolseiro em O Hobbit, onde se vê, de repente, dentro de uma jornada que ele nunca quis ou almejou.

Fritz Leiber foi somente o primeiro de muitos autores que formaram a estética do RPG como o conhecemos, que será apresentado aqui no Vila do RPG. Fiquem atento e procurem conhecer um pouco mais sobre a obra destes importantes representantes da fantasia que criaram conceitos que hoje vemos como clássicos. Como ja explanei acima, o RPG é intimamente ligado à literatura e esta será melhor vista em nossas páginas a partir de agora, com um olhar mais aprofundado e estabelecendo as bases que a ligam ao nosso querido jogo de interpretação.

Sérgio Magalhães

Revisitando clássicos da Fantasia

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7 comentários sobre “Fritz Leiber: Sword & Sorcery que inspirou D&D

  1. Valeu mesmo Rafael.

    Realmente cara, o trabalho deste escritor incrível ainda é muito desconhecido em nossas terras. E o pior, tem vários outros que nunca chegam ao nosso conhecimento. Já estão no forno, artigos sobre outros autores que influenciaram muito o RPG mas acabam não sendo conhecidos pelo público.

  2. Pow, realmente, nunca tinha ouvido falar do Leiber. Se não fosse esse post, talvez nunca nem ouvisse mesmo. Gostei da idéia e espero pelos próximos autores injustamente desconhecidos.

  3. No proximo artigo confiram o autor que primeiro falou sobre a Era Hiboriana!! Isso mesmo, antes de Robert E. Howard.

  4. Por incrivel que pareça a Era Hiboriana não foi uma criação APENAS de Robert E, Howard, e sim uma ambientação compartilhada, especialmente pelos escritores da revista Weird Tales.

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