Narra-A-Ação: Conhecendo seu Grupo (parte 1) – Tipos de Jogadores

Ao tomar para si o manto do mestre, você também toma a responsabilidade por boa parte da diversão na mesa de jogo. Afinal, é você quem deve construir as tramas, descrever o cenário, propor desafios, mediar os conflitos, etc… Você deve cuidar para que todos os membros do grupo estejam se divertindo com a sessão de jogo. Em resumo, tentar agradar a gregos e troianos. É claro que essa tarefa é um verdadeiro desafio, mas pode ter certeza que é muito recompensador quando você sente que cumpriu bem o seu papel como mestre de jogo. No entanto, para isso realmente dar certo, você precisa estar atento a vários detalhes. Pra começar, que tal conhecer os interesses e preferências dos jogadores de seu grupo?

É sempre bom saber o que motiva o grupo a jogar RPG. Será que  seus amigos querem jogar histórias de ação lutando contra hordas intermináveis de inimigos ou passar horas interpretando seus personagens em cenas repletas de intriga e traição? Ou ainda, será que não preferem um meio termo, intercalando cenas de interpretação e de combate? É claro que essa tarefa será mais fácil se seu grupo for composto por amigos de longa data, pois vocês já se conhecem e sabem o que esperar um do outro. Caso seja um grupo novo (ou uma mesa de evento), isso não será problema, pois um boa conversa pode facilmente resolver essa situação. Com base nas motivações e interesses dos jogadores, é possível dividi-los em algumas categorias mais comuns. Note que esses “tipos” são apenas exemplos genéricos e nem de longe representam a totalidade de interesses ou motivações dos jogadores.

Advogado de Regras, Overpower, Roleplayer, Estrela, Espectador... Quem é quem no seu grupo?

ADVOGADO DE REGRAS (Regrista, Wikipedia, Come Livro…)

O advogado de regras é aquele jogador que conhece o(s) sistema(s) de jogo como a palma de sua mão. Ele já leu e releu o(s) módulo(s) básico tanto quanto o mestre, ou até mais! Esse tipo de jogador se diverte vendo as regras sendo aplicadas (por ele, pelos outros jogadores e pelo mestre), em todo tipo de situação surgida durante as sessões de jogo – do combate à escavação de buracos… Até aí tudo bem. Na verdade, pode ser até bastante útil para você mestre ter na mesa uma compêndio de regras em forma humana. O problema é quando esse “gosto” pelas regras faz do jogador um obstáculo ao bom andamento da sessão, gerando discussões com o resto do grupo (muitas vezes até com o próprio mestre) e impendindo a diversão coletiva. A grande solução para isso é ter uma conversa franca com o advogado de regras. É preciso que o mestre deixe claro que as regras são apenas uma ferramenta no RPG, não sua mola mestra, podendo ser ignoradas ou modificadas caso venham a prejudicar a história que o grupo está contando. Se isso não resolver o problema com o “come livro”, lembre-o que sempre existe a famosa Regra de Ouro.

OVERPOWER (Combatente, Sanguinário, Apelão…)

Combate! Esse é o interesse do jogador overpower. Para ele, quanto mais batalhas tiver numa sessão de jogo, melhor. Esse tipo de jogador aprecia os desafios marciais que seu personagem vive – principalmente quando ele derrota o maior número de inimigos e conquista recompensas valiosas. O apelão se diverte realizando combos e tornando seu personagem cada vez mais poderoso, seja como uma forma de ajudar o grupo ou simplesmente por se achar “o cara”. Esse jogador é uma verdadeira faca de dois gumes. Por um lado, ele com certeza irá se deleitar com as batalhas da história, realizando proezas e façanhas que podem tornar os combates memoráveis. Por outro, ele poderá se entendiar facilmente com as cenas de investigação ou socialização, muitas vezes até se distraindo durante o jogo ou se ausentando da mesa. Agradar esse tipo de jogador é fácil, basta incluir combates repentinos  ou cenas de ação em sua história, no entanto, é preciso tomar cuidado para que as preferências do overpower não acabem tranformando sua história e uma sequência interminável de batalhas sem sentido.

ROLEPLAYER (Intérprete, Ator, Astro Amador…)

O jogador roleplayer gosta de interpretar. Ele realmente encarna seu personagem, falando em primeira pessoa e agindo como se fosse o próprio. Esse tipo de jogador gosta de criar backgrounds elaborados, interpretar de acordo com as motivações do seu personagem e interagir com os outros jogadores e elementos do cenário. Um astro amador prefere cenas de interpretação do que encontros de combate. Para ele, é muito mais importante desenvolver a personalidade de seu personagem do que suas habilidades e poderes. Nesse caso, as regras do sistema de jogo são usadas apenas como ferramentas, não como muletas. Mestres astutos geralmente aproveitam os ganchos que os roleplayers fornecem para tornar o jogo ainda mais rico, incorporando na história os NPCs, situações e acontecimentos citados pelo jogador no background de seu personagem. Às vezes essa forma de jogar acaba estimulando os outros jogadores, tornando as sessões mais divertidas para todo o grupo. No entanto, exagerar no roleplay pode acabar gerando algumas situações desagradáveis. O mestre deve estar atento para que que o astro amador não atrase o ritmo da sessão nem atrapalhe outros jogadores. Em casos extremos, pode acabar sendo chato jogar com alguém que insiste em interpretar todas as situações e falar com cada personagem que cruzar seu caminho.

ESTRELA (Exibido, Celebridade, Popstar…)

Esse tipo de jogador gosta de aparecer. A estrela quer que seu personagem sempre faça tudo, saiba tudo ou participe de tudo. Esses jogadores são entusiastas, mas facilmente podem ser tornar uma dor de cabeça. Eles geralmente falam bastante e tomam a dianteira do grupo em várias situações, mesmo que não sejam líderes de fato. O jogador estrela é sempre animado e gosta de ver seu personagem em destaque. O mestre deve ter cuidado com um jogador metido a estrela, pois se sua luz ofuscar os outros jogadores, isso com certeza se tornará um problema, afinal, todos os personagens devem ter seus momentos de destaque, não apenas um. Permitir que o personagem da celebridade roube a cena é fracasso certo. Apesar da estrela ter um grande potencial em tornar o jogo chato para os outros jogadores, ele também possui seus méritos. Sua animação pode ser usada pelo mestre como uma forma de envolver o resto do grupo na trama, desde que todos sejam tratados da mesma maneira. Além disso, alguns jogadores – por timidez ou simplesmente por não desejarem estar no centro das atenções – se sentem confortáveis deixando alguém tomar a frente durante o jogo.

ESPECTADOR (Astronauta, Invisível, Mudinho…)

Um jogador espectador parece estar sempre no mundo da lua. Ele fala pouco (quando fala), não se envolve muito com a história e fica com aquela famosa “cara de paisagem” durante toda a sessão. Os motivos para isso são variados. Esse jogador pode ser tímido, inexperiente ou alguém que está no grupo apenas para agradar os amigos. Um espectador geralmente acompanha o grupo, agindo conforme as decisões coletivas sem protestar. Para o mestre, saber se o jogador invisível está gostando da campanha é bastante difícil, pois por mais que ele afirme que sim, sua inércia costumeira durante o jogo é algo a se tratar – geralmente com uma conversa fora da mesa ou com estímulos à sua participação dentro do jogo. Se o espectador não atrapalhar os outros jogadores com assuntos extra jogo, então tudo bem. Mas caso além de não participar ativamente da sessão ele ainda atrase o jogo, conversando sobre videogame ou futebol, por exemplo, então o mestre deve alertá-lo para manter o foco. O mais aconselhado a ser fazer quando lidar com espectadores é ser atencioso e prestativo com eles, pois é possível que ele se envolva mais quando se sentir mais seguro ou confortável.

Alguns jogadores entram MESMO no espírito do personagem...

Tenho certeza de que você se identificou com algum dos tipos de jogadores acima ou reconheceu suas características em algum companheiro de grupo. Perceba que o que fará um jogador ser “bom” ou “ruim” não serão suas motivações ou preferências de jogo, mas sua capacidade de cooperação com o grupo, afinal, RPG é um hobby coletivo, não individual. Se um jogador está conseguindo conciliar seus interesses com os do grupo e todos estão se divertindo, então as coisas estão andando bem. Mas, caso o grupo se torne um verdadeiro conflito de egos, então é sinal que algo está errado.

Na segunda parte desse post, iremos discutir sobre os tipos de mestre e como sua atitude com o grupo influencia no jogo. Até lá!

Dmitri Gadelha

Jogador roleplayer de carteirinha!

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9 comentários sobre “Narra-A-Ação: Conhecendo seu Grupo (parte 1) – Tipos de Jogadores

  1. Rapaz eu odeio de todo o coração o Estrela velho, ainda ais quando ele é ONIPRESENTE e ONIPOTENTE cara é um porre!

  2. Realmente, já joguei muitas vezes com jogadores Estrelas e fica ruim de botar a narrativa pra frente sem virar galhofa,pelo menos no meu grupo. Quando se tem sorte de pegar um grupo só de roleplayers ai o mestre tá no céu dos RPGístas!! Não precisa nem se matar fazendo enredos e tramas, eles próprios ajudamnesta tarefa e apartida acaba bem mais envolvente e emocionante para todos.

  3. Tanto jogadores quanto mestres devem tentar perceber se os interesses ou preferências de um membro do grupo estão colocando em xeque a diversão coletiva. Geralmente o próprio jogador se toca disso, mas no caso de ter um sem noção no grupo, uma boa conversa entre amigos pode resolver o problema.

    Como diria o Matanza, “o segredo do sucesso é a moderação”.

  4. Eu não sei se o Autor leu, mas o livro básico de Dragon Age, muito fala sobre os tipos de jogadores definindo todos os tipos (inclusive seu artigo muito parece com essa parte do livro em questão). Ele é uma boa base também para definir esses “mocinhos”.

    1. Com certeza, Leandro! Muito bem percebido.

      Na verdade o post foi inspirado exatamente nessa parte do Guia do Mestre de Dragon Age e no primeiro capítulo do Guia do Mestre de D&D 4E. Ambos fornecem informações importantes sobre os tipos de jogadores, e o principal, como lidar com eles para que o grupo se divirta como um todo, não apenas um ou outro.

  5. Bacana , deve-se dar maior atenção ao espectador e mantê-lo atuante no jogo, muitos deixam de jogar por que nao se encaixam na aventura e isso é responsablidade do narrador .
    Agora aos que atrapalham nada como a velha ameaça de retirar XP …hehehe…sempre funciona.

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