Adaptação: Túneis (parte 1) – História e Ambientação

“Tudo que é desconhecido é suspeito.”

– Anônimo.

Olá amigos nerds e camaradas RPGistas! Depois de quinze dias infernais, por conta do volume de trabalho aqui na gráfica, retomo as atividades no Vila. E meu regresso vai ser marcado pela resenha/adaptação de um bom livro para os amantes da literatura infanto-juvenil: Túneis, de Roderick Gordon e Brian Williams. Tentarei usar o mínimo de spoilers possível, ou seja, a leitura dos livros ainda é necessária para captar toda a magia e o clima do cenário. Como sempre, manter o padrão de fornecer detalhes suficientes para que não se tenha dificuldade ao adaptar o cenário para outros sistemas além dos propostos.

SINOPSE

Túneis é protagonizado por um garoto chamado Will Burrows. Mais um desses estereótipos de garoto problema que sofre bullying porque não conseguem se encaixar devido suas “nerdices”. No entanto as esquisitices de Will são, no mínimo, realmente originais. Não bastasse ele ser albino (aquele problema de pele em que o indivíduo não produz melanina e, portanto, é extremamente sensível à radiação solar), Will tem o estranho hábito de cavar buracos. Mas não são simples buracos. Ele aprendeu com o pai, o Dr. Burrows, que é arqueólogo, a abrir verdadeiros sítios arqueológicos. E ele passa todo seu tempo livre envolvido nesse troço. Will anda por aí em sua bicicleta vestido com roupas de escavação, óculos escuros, chapéu de explorador e uma pá, extremamente polida e bem cuidada, presa às costas na sua mochila. O pai de Will é o Dr. Burrows. Um historiador extremamente habilidoso, mas que depois de ter a maior descoberta da sua vida roubada por outro arqueólogo, caiu em desgraça e se acomodou a uma vida insossa enfurnado no museu pífio da pequena cidade de Highfield, nos arredores de Londres.

Apesar de nunca ter conseguido encaixar-se, Will acaba encontrando um grande amigo na escola: Chester Rawls. Chester é do tipo “grandão e lento de raciocínio”, mas tem grande coração e torna-se um autêntico amigo e companheiro nas aventuras que Will vai enfrentar. Eles têm em comum o constante bullying que sofrem por parte dos outros garotos do bairro e são constantemente perseguidos pelas gangues locais. Chester é gigante para sua idade além de ter um problema de pele esquisito que lhe deixa cheio de eczemas e descamação pelo corpo inteiro.

Não bastassem as “aventuras cotidianas” de ter que lidar com os valentões do bairro e com a família de esquizofrênicos, Will e Chester acabam encontrando em suas escavações algo estranho e incrível. Com o desaparecimento repentino do pai, Will fica obcecado por descobrir o que lhe aconteceu, uma vez que a idéia de o pai ter simplesmente ido embora lhe é inadmissível. Esse é o estopim para uma aventura nunca imaginada pelo garoto. É ali, na pequena cidade de Highfield, que Will e Chester vão dar de cara com um mundo subterrâneo existente abaixo de Londres. Habitado por criaturas fantásticas e por uma raça de sujeitos muito perigosos e cruéis. A partir daí os dois garotos vão enfrentar desafios sem limites na esperança de conseguirem fugir do estranho mundo subterrâneo para onde serão arrastados, a milhares de quilômetros terra adentro, e conseguir retornar às suas vidas simples na superfície.

A OBRA

A partir deste enredo simples e puramente infanto-juvenil, Gordon e Williams desenvolvem as profundas psiques de seus personagens e conseguem transformar o pequeno adventure infanto-juvenil numa batalha épica envolvendo dois mundos: o subterrâneo e a superfície. No Brasil a Editora Rocco lançou os dois primeiros volumes da série: Túneis (2008) e Profundezas (2010), e promete o terceiro livro para este ano ainda. Os autores já publicaram ao todo quatro títulos da série: Tunnels, Deeper, Free Fall e Closer. O quinto livro, Spiral, está prometido para outubro deste ano e já tem capa e publicidade na web.

Embora os protagonistas sejam adolescentes o plano de fundo da série é extremamente denso, psicológico e violento. As ações dos Stix são terríveis e em certos pontos a violência é tamanha que nos deixa em dúvida se estamos lendo de fato um livro infanto-juvenil – ou talvez eu esteja apenas ficando velho e essas coisas sejam normais hoje (saudades da Série Vagalume). As decisões que os personagens precisam tomar são também bastante profundas. Traição, deixar amigos para morrer, loucura, solidão e sangue frio são marcas constantes nas páginas criadas pelos autores, principalmente no livro 2: Profundezas. Assassinato, morte e violência fazem parte do dia-a-dia. O livro deixa umas pontas soltas no decorrer da história e alguns acontecimentos são bastante inverossímeis. Mas isso não apaga o brilho dos seus bem produzidos personagens – que são o ponto alto do livro – nem do relacionamento entre eles. Will, Cal, Chester, Elliot, Dr. Burrows e a espetacular Rebecca, além de Drake, Tam e Sarah, dão um show de carisma e personalidade.

Os autores Roderick Gordon (à esquerda) e Brian Williams (à direita).

O  mundo impossível criado por Gordon e Williams é muito bem descrito e com tal habilidade que realmente esquecemos a impossibilidade da situação e somos arrastados para o sonho ficcional criado pelos autores. A geografia, ecologia e fenômenos presentes no mundo subterrâneo deixam claro que os autores tiveram referências na obra Viagem ao Centro da Terra, além de livros e/ou artigos sobre as Teorias da Terra Oca (que eu, por sinal, acho muito fascinantes).

Bestseller do New York Times, Túneis chegou a receber o título de “O novo fenômeno publicitário, depois de Harry Potter”. No entanto, concordo com um blogueiro amigo ao dizer que Túneis não serve para substituir HP. Não por conta da história, que incusive acho muito melhor, mas porque não possui elementos publicitários suficientemente apelativos para uma explosão comercial, afinal Will é albino e esquisito e Chester é gordão e cheio de eczemas… certamente um dupla pouco “comercial”. Mas, faz tempo que deixei de me impressionar com a capacidade e gênio publicitário de Hollywood e os direitos para o longa cinematográfico já foram comprados pela Relative Media (Hellboy: O Exército Dourado e As Crônicas de Spiderwick) com a direção de Vicenzo Natali (Splice: A Nova Espécie e Cubo).

ADAPTANDO

As descrições do livro são suficientemente profundas e claras o que resulta em pouca dificuldade para criar uma adaptação. O cenário parece ter sido desenvolvido para ser usado numa mesa de RPG e dá informações muito boas para que qualquer narrador possa usar o conteúdo em seu sistema predileto, sendo o Daemon, GURPS e M&M, certamente, boas escolhas. Contudo, o tom do livro e a descrição da ação não me deixaram nenhuma dúvida quanto a qual sistema usar para essa adaptação: Storytelling.

O sistema do novo Mundo das Trevas é o mais recomendado pois fornece a mecânica e o tom exatos para uma aventura no cenário de Túneis, uma vez que é suficientemente rápido e denso para garantir que o clima criado pelos autores seja mantido. O que vamos fazer nas linhas abaixo é um resumo sobre a Colônia e seus habitantes, vistos no primeiro livro da série. Para semana que vem teremos a descrição das Profundezas que são exploradas pelos personagens, além das fichas de Will, Chester, Dr. Burrows, Cal, Tam, Elliot, Drake e Sarah como são vistos ao fim do segundo livro.

1. História

Em 1733 nos limites da cidade de Highfield a mansão da família Martineau incendiou e acredita-se que naquele terrível acidente tenham morrido Sir Martineau e suas duas filhas. Poucos anos antes do incêndio, Sir Martineau perdera sua esposa vítima de tuberculose. O importante homem de negócios, cientista e filantropo caiu em desgraça. A morte de sua amada deixou-lhe sem chão e foi o motivo para ele isolar-se do mundo buscando consolo numa estranha seita religiosa sobre a qual se sabia muito pouco.

A seita em questão era liderada por um grupo de criaturas do subterrâneo chamadas Stix. Humanóides esbeltos de tez alta e pele totalmente branca com olhos negros e cabelos que vão do preto total ao branco puro, passando pelo prata e cinza. Estes seres eram os últimos sobreviventes de uma catástrofe que havia destruído sua cidade, tornando-a inabitável. Os Stix encontraram em Martineau a oportunidade de reerguer seu império e retomar sua luta contra a superfície. Martineau foi manipulado e talvez até a morte de sua esposa tenha sido um artifício Stix na concretização do plano de reerguer seu mundo. Por muitos anos os Stix raptaram pessoas com reconhecidas habilidades nos campos da física, engenharia e química e as convenceram ou forçaram a trabalhar para eles nos subterrâneos, desenvolvendo a tecnologia que possibilitaria a reconstrução de suas cidades. Martineau e seus homens ficaram conhecidos como Os Primeiros e o próprio Gabriel Martineau ganhou o título de Pai Fundador. Foram esses homens que contruíram a cidade subterrânea chamada de Colônia e ao redor dele os Stix ergueram uma muralha de fé e adoração.

O Pai Fundador é adorado como um tipo de Cristo entre os Colonos e os Ancestrais que participaram das primeiras escavações são como santos e apóstolos da seita que fundamenta seus ensinamentos em um livro intitulado O Livro das Catástrofes. Equivalente à Bíblia ou Alcorão, esse livro traz a doutrina e a prática de vida para os Colonos. Os Stix atribuem a origem do livro à força divina e através de suas páginas defendem o extermínio dos habitantes da Crosta – como se referem à superfície – que serão julgados e punidos por Deus, para que então, os “verdadeiros crentes” – os Colonos – possam realizar seu êxodo triunfal e glorioso para a Terra Prometida, abandonando as trevas do subterrâneo para habitar na superfície, então pacificada e purificada de todos os maus.

A grande maioria dos Colonos é totalmente convertida à seita Stix e fazem de tudo para conservarem-se puros e obedientes de acordo com as doutrinas do Livro. Porém, vários indivíduos, sobretudo nos Cortiços, questionam e tem descrido dos ensinos Stix e do seu livro “sagrado”. Quando descobertos tais hereges podem ser presos, mortos ou, na pior das hipóteses, serem desterrados para As Profundezas. Um local extremamente temido pelos Colonos, cercado de mitos, lendas e crendices, considerado um destino centenas de vezes pior que a morte.

Um dos locais sagrados para os Stix.

2. A Colônia

A Colônia é uma cidade de grandes proporções cravada centenas de metros sob a cidade de Highfield. A própria arquitetura de Highfield esconde centenas de dutos e respiradouros que levam à Colônia. O que mostra que havia muitos anos que os Stix indiavam a mente de Martineau, desde a época que ele coordenou a construção de Highfield, cuja rua principal, High Square, corresponde precisamente à principal avenida da Colônia, Martineau Square.

A arquitetura da Colônia é predominantemente vitoriana, mas possui traços de outros períodos e alguns edifícios austeros de formatos angulares com arquitetura muito distinta que são extremamente antigos e servem de base e escritórios para os Stix. Milhares de tubos saem das casas na Colônia com destino à superfície. Esses tubos são respiradouros e são essenciais à manutenção da vida na Colônia. Além desses dutos existe um elaborado sistema de drenagem sanitária e distribuição de água. Apesar destes importantes desenvolvimentos científicos o mais impressionante e importante são as pedras de luz.

As pedras de luz são esferas de vidro que contem em seu interior duas substâncias binárias. na ausência de luz os líquidos presentes dentro da esfera misturam-se e dessa mistura emitem uma luminescência verde esmeralda. Quanto mais escuro maior será a emissão de luz verde, chegando ao ponto de deixar uma sala tão clara como o dia. Foi esse aparato que permitiu a vida dentro da Colônia. A cidade possui incontáveis postes e pontos de luz equipados com essas esferas dentro de espécies de lamparinas e lanternas vitorianas.

Pode-se dividir a Colônia em quatro grandes setores: A Colônia propriamente dita é onde vivem os cidadãos comuns, ali existem também alguns bairros nobres ocupados por membros da Classe Governante, que são colonos que conseguiram posições sociais elevadas na intrincada cadeia de comando criada pelos Stix. Esses colonos atuam em áreas administrativas ou caíram nas graças dos Stix por algum serviço escuso que praticam ou praticaram. Existe também uma extensa área agrícola, além de cavernas de onde são retirados minérios. Postos militares avançados se espalham pelas fronteiras guarnecidos por fortes, cadeias e pequenas vilas habitadas, sobretudo, por polícias e suas famílias. Além dessas divisões, a Colônia possui uma vasta área chamada de Cortiço. Ali vivem os párias sociais. Todos aqueles que foram, por qualquer razão que seja, enjeitados ou esquecidos vão parar numa imensa favela, com péssimas condições de vida, mas uma liberdade de expressão muito maior que a vivida pelo cidadãos comuns e suas famílias.  O Cortiço é a única região da Colônia onde os Stix e sua igreja podem ser criticados abertamente sem que haja medo de  represálias ou punição. O povo do Cortiço é amigo e se auto protege dos “de fora”, mas qualquer Stix ou cidadão comum que vá inadvertidamente percorrer aquelas ruas sujas e escuras pode encontrar um destino terrível nas mãos de assaltantes e todo tipo de marginal e indivíduos perigosos.

Existe uma infinidade de cavernas e passagens que podem levar à Colônia. As patrulhas Stix, chamados Limitadores, são especialistas em buscar essas passagens, fechá-las e dar fim a qualquer indivíduo que tenham tido contato com qualquer vestígio da existência da Colônia. As entradas principais, porém, são grandes elevadores, do mesmo tipo usado em minas e construções de prédios. Fortemente protegidos, esses elevadores descem centenas de metros e levam às câmaras de descompressão onde a pressão é equalizada para que se possa adentrar as profundezas da terra – assim como fazem os mergulhadores que deixam as profundezas do oceano em retorno à superfície.

Os Stix criaram uma bem estruturada rede de espiões e agentes duplos que permeiam todas as esferas da sociedade humana, desde policiais até juizes, passando por repórteres e vendedores. É através dessa rede que os Stix mantem a superfície ignorante quanto à existência da Colônia e de todo o mundo subterrâneo. Assassinatos, desaparecimentos, chantagem e propina também são recursos corriqueiros para os agentes Stix em ação na superfície.

Uma provável paisagem do Mundo Subterrâneo de Túneis.

3. Os colonos

Os habitantes da Colônia sofreram várias adaptações fisiológicas durante os trezentos anos que estiveram sob o solo. Basicamente são humanos, mas sua fisiologia os adaptou à vida subterrânea dando-lhes maior força física e um olfato surpreendente, sendo a maioria dos homens indivíduos corpulentos e pesados. No entanto, suas peles tornaram-se pálidas e seus cabelos brancos como a neve. Seus olhos também se adaptaram, concedendo-lhes uma pequena visão na penumbra, mas tornando-se extremamente sensíveis a fontes de luz muito fortes, como os raios solares ou mesmo fogos de artifício.

Os Colonos alimentam-se sobretudo de larvas, insetos e fungos cultivados nos arredores da colônia em espécies de fazendas, além de roedores que habitam o submundo. Os Colonos também apreciam várias comidas da superfície, sobretudo as frutas, e conseguem comprá-las por preços exorbitantes através de contratos sigilosos com mercadores da superfície que tem permissão para comercializar na Colônia ou podem se arriscar no mercado negro da cidade. Produtos industrializados como chocolates, bombons e qualquer tipo de produto embalado ou envazado é proibido na Colônia e ser pego em posse de algum deles é um crime grave. Isso não impede que os tais circulem no mercado negro e sejam cormecializados no Cortiço. As roupas dos colonos também são bastante estranhas a um habitante da superfície. São feitas de fibras grossas e possuem cortes angulosos e pouco confortáveis. Tecidos leves são um requinte reservado apenas aos que fazem parte das classes governantes e aos Stix.

Todos os cidadãos comuns tem dois deveres para com o estado governante. O primeiro dever é o de comparecer a todos os ofícios religiosos. O segundo é o de colaborar num dos trabalhos comunitários, que são vários: limpeza dos esgotos, colheita de fungos, faxina das ruas, desemtupimento dos tubos de ventilação e fossas comunitárias, troca das luminárias públicas e mais um sem número de outros trabalhos essenciais à manutenção da vida na Colônia. As crianças, em especial, são as mais utilizadas nesse tipo de função.

Um vislumbre das vastidões nas profundezas da Terra...

Bom, camaradas, é isso! Por enquanto já temos material mais que suficiente para iniciar uma boa trama no fantástico cenário de Túneis. Cuidado onde pisa aventureiro. E mais cuidado ainda ao topar com uns caras de preto e colarinho branco por aí.

Imiril Pegrande

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4 comentários sobre “Adaptação: Túneis (parte 1) – História e Ambientação

  1. Mais uma adaptação de peso do nosso mestre Imiril!

    Eu não conhecia essa série de livros, mas me interessei e irei procurar. Apesar de não ser muito fã de literatura juvenil (Harry Potter nunca me agradou), se o clima e narrativa são densas como você disse, Alan, vou me informar melhor e colocar na minha lista de próximas leituras.

    Fico no aguardo das fichas na segunda parte da adaptação.

  2. Bom Dmitri, apesar de não conhecer bem teu gosto. Acho que posso arriscar dizer que vc vai gostar bastante de Túneis (não gostar de HP é um indício disso…).

    Nos próximos posts ainda vamos acrescentar muita coisa. Há bastante a ser explorado no universo de Túneis.

    E podem ficar na expectativa que na fila das minhas adaptações ainda tem os extraordinários “A Sétima Torre” e “As Chaves do Reino” do grande Garth Nix. Que são livros que realmente me surpreenderam.

    Sem falar do meu projeto para Old Dragon: Adaptação da Trilogia “A Viagem” de surpreendente Terry Brooks.

    Agora é torcer pra eu conseguir dar conta de tudo ahsuahushuahushauhusha

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