Tinta & Pena: Frank Frazetta – Espada, Magia e Sensualidade

Retrato de Frazetta, por Greg Staples (artista renomado que faz trabalhos para a Wizards of the Coast e várias outras empresas de grande porte)Frank nasceu em Brooklyn, New York, no dia 9 de fevereiro de 1928. Ainda garoto, estudou em uma escola de arte local, e já chamava a atenção de seus mestres. Entretanto, a arte tradicional não satisfazia sua imaginação. Por volta dos 15 anos, Frazetta já ilustrava profissionalmente tirinhas de quadrinhos, mas não davam muito valor a seu trabalho e até reduziram seu salário arbitrariamente, foi então que ele passou por maus bocados. Mal sabiam que Frazetta viria a ser descoberto pela indústria do cinema logo depois e que acabaria ganhando por trabalho lá o mesmo que a indústria dos quadrinhos lhe pagava por ano! Um de seus primeiros trabalhos foi um poster do filme “What’s New Pussycat?” (1965), escrito por ninguém mais nem menos que Woody Allen. A partir daí sua carreira deslancharia e ele passaria a viver de seus quadros e ilustrações. O sonho de qualquer desenhista!

Vale ressaltar que Frazetta se considerava um esportista, talvez até mais que um artista. Ele amava baseball e curtia boxe. Tinha um corpo bem trabalhado e esbanjava saúde. Felizmente para nós, ele não se empenhou em entrar no esporte profissionalmente. Na verdade, ele mesmo admitiu que não tinha tanta vontade de ser um esportista profissional, pois na época o esporte não pagava tanto quanto atualmente. Frank foi empurrando com a barriga, até recusou um convite dos New York Giants, e quando se deu conta, já tinha ficado “velho” demais para voltar atrás. Ainda bem!

O espetacular Frazetta foi um estouro tão grande que, durante alguns anos na década de 70, editores compravam praticamente qualquer desenho do cara e pagavam escritores para criarem romances ou contos baseados nos desenhos do Frank. É isso mesmo! Os caras chegavam para ele pedindo uma capa para um livro que eles nem tinham! O livro só seria escrito depois, baseado na pintura de Frank ou encaixando essa imagem de alguma maneira no tema (algumas vezes o livro nem tinha nada a ver com a imagem). A história não interessava tanto, mas a capa tinha que ser do Frazetta. Fácil entender isso, porque qualquer que fosse o livro ou revista, se tinha a capa do Frank Frazetta, vendia feito água! A comprovação máxima desse sucesso garantido foi uma coletânea dos desenhos dele que em 1977 vendeu mais de 300.000 cópias. Não, você não leu errado, eu escrevi trezentas mil cópias! Para você, caro leitor, ter uma noção do que significava isso para aquela época, Elvis Presley – ainda vivo – vendeu a mesma quantidade de cópias do seu último single ‘Way Down’, no mesmo ano. Ora, se você considera Elvis o rei do rock, pode coroar Frazetta o rei da arte fantástica.

Arte fantástica e a origem do RPG

Todos sabemos que o RPG – e os jogos em geral – tem um apelo visual. Um livro de RPG sem ilustração alguma não é livro de RPG. Ninguém pode negar que folhear um livro bem ilustrado (estou falando de qualidade, não quantidade) é um prazer a mais. A ilustração é o elemento que traz à mente a visão daquele cenário de campanha, ou daquele personagem em específico, etc. Duvido que o primeiro RPG da história tivesse se proliferado tão rapidamente se não fossem as ilustrações e capas de Jeff Easley, Larry Elmore, Clyde Caldwell, Brom, dentre outros. Você certamente já viu as capas desses caras (inclusive aqui no blog). Se você já viu as capas dos livros de RPG, desde a extinta TSR até a atual Wizards of the Coast, pode ter certeza que conhece esses caras. Pois bem, pode “googlear” esses nomes e conferir que todos foram influenciados por Frazetta ou são fãs declarados dele. Ora, se esses artistas criaram o imaginário fantástico do RPG, e eles foram influenciados diretamente por Frazetta, logo podemos afirmar que Frazetta delimitou os parâmetros da arte fantástica também dos nossos livros de RPG.

É simples entender o porquê desse sucesso todo. Antes de Frank Frazetta, o imaginário fantástico não passava dos limites eurocentristas medievais, ou seja, até aquela época, não existira artista que tivesse ousado pintar o “fantástico” diferente do mundo europeu medieval. Exemplo claro disso eram as capas dos contos do Conan, que delineavam um personagem no estilo greco-romano ou medieval. Conan parecia mais com Odisseu ou Hércules. Foi então que Frank Frazetta desenhou “Conan, o Aventureiro“. O estilo do mestre Frazetta virou febre definitiva e ninguém mais comprava livros com capas que não fossem do Frank. Surgia ali o molde da arte fantástica, com espada e magia, como conhecemos hoje.

A partir daí, outros desenhistas se “aventuraram” nessa noção de mundos fantásticos, povoados por criaturas bizarras, guerreiros imbatíveis e damas solícitas – e todo mundo adorou. Não demorou muito e o estilo artístico “espada e magia” viria a influenciar os escritores de literatura fantástica e os amantes de boardgames das décadas seguintes – dentre eles, Gary Gygax e Dave Arneson. O resto dessa história você já conhece. O que você não sabia é que tudo começou lá atrás, com um humilde ilustrador/pintor novaiorquino que queria apenas ganhar a vida com seus traços e sua criatividade ilimitada.

Falando em criatividade, uma das características mais incríveis de Frazetta era o modo peculiar como ele trabalhava. Você deve saber que todo artista, inclusive os grandes gênios, como Michelangelo ou Da Vinci, geralmente se utiliza de modelos para servir de referência para seus quadros. Frazetta, por outro lado, sempre preferiu trabalhar com a imaginação, sem referência alguma! O pior – ou melhor – é que o cara praticamente não errava as noções de sombra e luz, proporção, perspectiva, enfim, tudo que a referência oferece ao artista. Claro, Frazetta não negou que já utilizou modelos de vez em quando, até mesmo sua esposa, quando necessário. Ainda assim, o artista revelou nunca ter gostado de fazer isso, talvez por julgar a referência como delimitadora no processo criativo. Nas palavras do próprio mestre, “Trabalho puramente com a imaginação. Nada de referências, nada de fotografias.”

O incrível é que isso não é o único fator que fez de Frank um gênio. Pasme você, caro leitor, que o cara sofreu uns seis derrames nas últimas décadas de sua vida, o mais forte deles levando-o a perder o movimento de seu braço direito (e ele era destro). Pois bem, qualquer um teria parado de desenhar ali. Não Frank Frazetta. Ele treinou o braço esquerdo e voltou a desenhar praticamente como se tivesse nascido canhoto! Isso mesmo, com tanto XP acumulado ao longo de sua carreira, Frazetta deve ter comprado a vantagem ambidestria.

Essa rapidez em aprender era marca registrada de Frazetta. Ele contou uma vez que um artista para o qual trabalhou, Ralph Mayo, o puxou para o canto, entregou um livro de anatomia e disse, “Frank, seu material é ótimo, mas você precisa aprender um pouco de anatomia”. Na mesma noite, Frank copiou o livro inteiro. No dia seguinte, ele devolveu o livro e agradeceu. Ele começou a desenhar e Ralph ficou maravilhado com a evolução! Não parecia ser possível, mas Frazetta tinha aprendido anatomia em uma noite!

Foi exatamente durante esses anos de definição de um estilo próprio que Frazetta trabalhou para a Playboy e fez coisas do gênero. Provavelmente por isso ele pintava uma mulher sensual como ninguém. Ora, “boa pinta” e “pegador”, Frazetta teve várias mulheres, ou seja, referência de corpo feminino não lhe faltou.

Essa sensualidade nas ilustrações e pinturas de Frazetta é latente. As mulheres estão quase sempre nuas ou semi-nuas. Elas estão retratadas como aparentemente frágeis e assustadas, porém cativantes, com curvas estonteantes e em posições extremamente sensuais. Em contraponto, os homens são sempre exemplares da raça, com músculos trabalhados e testosterona a pulsar de seus movimentos em defesa dessa donzela. É fácil notar a influência das esculturas clássicas, estudadas no início de sua carreira, pois Frank não pintava os homens com dorso em “V” (cintura fina e ombros largos). Suas figuras humanas lembram mais as esculturas gregas que os super heróis tradicionais americanos.

Apesar da sensualidade não ter sido o foco da maioria de suas obras, Frazetta não poupou esforços para delinear os corpos mais sensuais que pôde imaginar, e essa sensualidade faz parte dos atrativos de seu trabalho. Curioso é notar que o modelo atlético feminino de Frazetta não é aquela mulher das passarelas. As mulheres de Frazetta sempre foram pintadas com um pouco mais de “carne”, curvilíneas e voluptuosas. Segundo relatos, Frazetta afirmava que esse era o tipo de mulher que mexia com as fantasias masculinas. Não vou negar que concordo plenamente.

Provavelmente por conta dessa sensualidade, além do feeling de magia, barbarismo e heroísmo, os quadros de Frank não poderiam ter se encaixado melhor com os contos de Robert E. Howard, e essa “parceria” se tornaria sólida na cabeça dos fãs de fantasia desde então. Por isso, artistas como John Buscema e Ernie Chan precisaram captar bem todas essas nuâncias dos quadros de Frazetta ao “traduzir” os contos de Conan em quadrinhos. Na minha opinião, eles fizeram um trabalho perfeito,  pois os quadrinhos se encaixavam bem com as pinturas de Frank. Ainda hoje, apesar dos quadrinhos pintados pelos mais variados artistas, se você falar em Conan, muita gente vai pensar em Frank Frazetta.

O legado do mestre

Além dos artistas já citados há alguns parágrafos, vários outros seguiram o trabalho de Frank Frazetta: Mark Schultz, Simon Bisley, Dave Stevens, Michael Caluta, Tom Gianni, Norem, Greg Staples e Boris Vallejo são alguns dos mais célebres dessa lista. Porém, não pense que o traço de Frazetta se limitou a influenciar apenas os ilustradores.

Coincidentemente ou não, o sucesso da arte de Frazetta foi concomitante ao movimento Heavy Metal. Então, não é de se admirar que algumas bandas, como Nazareth e Molly Hatchet, tenham escolhido o traço do artista para a capa de alguns álbuns. Essa conexão entre arte fantástica e heavy metal se tornaria regra. O famoso guitarrista do Metallica, Kirk Hammet, comprovou isso ao comprar um quadro de Frank num leilão por 1 milhão de dólares, batendo assim o recorde de venda de uma única peça do gênero. Nem o mundo Sci-Fi escapou das influências de Frazetta. Segundo o New York Times, George Lucas assumiu que a arte de Buck Rogers, feita por Frazetta, o inspirou conceitualmente durante a criação de Star Wars. É mole?!

Na indústria do cinema a influência de Frazetta não poderia ser menor. Em Hollywood, Frazetta disse que encontrou vários posters com suas pinturas pendurados pelas paredes. John Milius, o diretor de ‘Conan O Bárbaro’ (1982), filme que lançou a carreira de Arnold Schwarzenegger, admitiu que na indústria do cinema Frazetta era influência unânime. Famosos como Clint Eastwood, Sylvester Stallone e George Lucas visitaram Frank Frazetta e tinham uma postura de fã, assim como o próprio Frazetta também tinha por eles. Ele descreveu em seu documentário que não sabia quem era mais fã de quem.

Até na extinta novela da Globo, ‘O Beijo do Vampiro’ – lembra?! – havia um quadro do Frank! É, admito, eu assistia aquilo… mas eu era moleque, sem noção e tinha tempo livre, fazer o quê? Recordo vividamente do quadro “Deathdealer” pendurado na casa do vampiro Boris Vladesco, personagem de Tarcízio Meira. Na época eu nem sabia quem era Frank Frazetta, mas a pintura é tão marcante que, anos depois, ao conhecer o trabalho do artista, pude reconhecer a obra na hora.

Tudo isso apenas ilustra que o talento de Frank Frazetta é maior que as fronteiras da arte. Em qualquer canto você pode acabar esbarrando com os quadros do cara.

Infelizmente, toda história de sucesso tem um fim. A amada esposa de Frazetta faleceu em 2009 e, no ano seguinte, o artista se entregou ao descanso eterno. Após a morte de Frazetta, seus filhos caíram na briga pelos quadros, considerados uma verdadeira mina de ouro. Houveram boatos, inclusive, que as trancas do Museu Frazetta tiveram de ser trocadas várias vezes para evitar que quadros “desaparecessem misteriosamente”. Alfonso Frank Frazetta, um dos filhos do pintor, foi detido sob acusação de tentar roubar 90 quadros do falecido pai, que estavam segurados no valor de $20 milhões. É, tragédias acontecem até com as melhores famílias…

Em 2003, um documentário foi feito sobre a vida e a obra de Frazetta, ‘Painting With Fire’. Vários artistas famosos deram seus testemunhos sobre o mestre e o próprio Frank participou, bem humorado e muito lúcido. Vale a pena conferir, se você quiser saber mais sobre Frank.

Muito bem, espero que esse post tenha servido como uma humilde contribuição à memória do grande mestre Frazetta e também para mostrar a você um pouco do pioneiro que foi o Frank. Se você é artista ou ilustrador, jogador de RPG ou simplesmente admirador da arte fantástica, não poderia deixar de conhecer o trabalho desse artista, considerado por muitos o mais influente do século passado. Um coisa é certa, o cara era um modelo a seguir. Existem muitos artistas hoje “se vendendo” para trabalhos que pagam mais, em detrimento de pintar o que realmente gostam. Frazetta foi a prova de que trabalhar com aquilo que você gosta pode levar a algum lugar: “Bem ou mal, uma coisa que posso afirmar sobre minha arte é que, se puder citar Sinatra, eu fiz do meu jeito.” – Frank Frazetta

Agora é só vasculhar a internet pelos trabalhos dele e curtir. Até a próxima!

Helton Moreira

Se deleitando uma vez mais com as pinturas do grande mestre Frazetta!

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6 comentários sobre “Tinta & Pena: Frank Frazetta – Espada, Magia e Sensualidade

  1. Caramba Helton, ficou muito bom o artigo, completo e bem mais rico que muitas biografias que existem por ai! Parabéns mesmo. Fico realmente honrado que o Tinta & Pena esteja em mãos tão competentes.

  2. Uma estréia mais do que fantástica!!! Seja bem vindo ao blog, Helton. Fico feliz em podermos contar com um cara tão competente para artigos como esse. Que venham mais Tinta & Pena e muitos outros posts!

  3. Grande Helton, é isso ae garoto, muito bem escrito, falou tudo sobre o “O HOMI” ehhehhehe.

    Tenho dois livros dele, um de sketches e outro com as pinturas finais, todos dois sensacionais, sempre que abro para folhear e me inspirar é uma viagem diferente.

    Frazetta mexe com sua mente, ele conta uma historia inteira no espaço pequeno do canvas, numa técnica muito solta e cores que só ele sabia fazer.

    Valeu Helton, espero ansioso o próximo post. 😉

    1. É verdade! Criei uma campanha inteira de GURPS Conan só olhando para um quadro do cara. Pena que nunca acabamos.
      Que venha o próximo! hehe

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