The Thing: Adaptação para GURPS

Quando eu era adolescente, era do tipo que ficava acordado até tarde pra assistir Cine Priv, digo, Corujão. Alguns dos melhores filmes que já vi na vida foram assistidos por ali, principalmente os de terror. Dentre esses, três em especial realmente me fizeram perder o sono e ter maravilhosos pesadelos: Cemitério Maldito (tive pesadelos durante dias com aquele gato desgraçado); Força Sinistra (duvido que algum dos nerds aí se lembre desse clássico mega cult, sem recorrer ao Google); e, por fim, O Enigma do Outro Mundo. E é exatamente sobre este último que vamos falar agora.

Os anos 80 foram uma mina de ouro para grandes clássicos cult. Filmes que na época foram jogados na sarjeta pela sempre tão atuante “crítica especializada” mais tarde foram considerados “à frente do seu tempo”, “prelúdio de um gênero qualquer”, “cult” e todo tipo de conversa pra não admitir que os críticos “especialistas” muitas vezes estão mais preocupados com as picuinhas de bastidores do que com o filme em si… Fazer o quê, né? Isso não mudou muito. Mas eu gosto de “filme ruim” desde aquela época. E se tem um filme de terror que eu nunca esqueci foi O Enigma do Outro Mundo, (The Thing, no original).

Lançado em 1982, dirigido por Jonh Carpenter e estrelado pelo Kurt Russel, que na época tinha feito o surpreendente Fuga de Nova York (1981) e mais tarde faria o icônico Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986). The Thing é inspirado num filme de 1951, O Monstro no Ártico, uma adaptação do espetacular conto Who Goes There? de Jonh W. Campbell. Na época, o filme foi mal recebido e Jonh Carpenter pesadamente criticado por conta do uso “exagerado” de efeitos especiais – dá pra acreditar nisso?! Porém, anos mais tarde (que novidade…) o filme alcançou o status cult e foi extensivamente elogiado, principalmente pelo trato dado aos relacionamentos humanos, ganhando além de jogos para computador e PS2, HQ e uma espécie de remake.

Bom, chamar o novo filme de “remake” não é muito apropriado. Na realidade, trata-se de um prequel para o filme de 82. Nessa nova filmagem vemos o que aconteceu na base norueguesa durante a descoberta da Coisa e como tudo descambou para o cenário visto no filme anterior. Como não podia deixar de ser, a crítica caiu matando em cima do The Thing – 2011. Dirigido por Matthijs van Heijningen Jr. (eu confesso: não tinha jeito de digitar o nome desse cara sem copiar de algum site, não sei nem pronunciá-lo) e protagonizado pela belíssima Mary Elizabeth Winstead, veterana em filmes de terror (pena que o filme é no gelo e ela só aparece com muita roupa…), mas já é um avanço em relação ao predecessor que não tinha nem uma mulher, nem mesmo na equipe de produção.

Com meu gosto duvidoso para filmes, é claro que gostei desse. Principalmente porque o diretor teve a clara intenção de conceder um tributo ao Enigma do Outro Mundo. Ele não quis reinventar a história, ampliá-la ou melhorá-la de qualquer forma, quis apenas complementar. Esse fato é quase que esquecido pela maioria que viu o filme e, principalmente, para quem não assistiu ou não lembra do filme de 82, The Thing perde metade do seu sentido e “beleza”. Lembro que quando assisti ao filme antigo muitas perguntas e curiosidades ficaram martelando na minha cabeça por anos a fio: como seria o monstro que o MacReady levou para a base? Quem era aquele cara morto com a navalha na mão e porque teria se matado? Como era a criatura que estava no bloco de gelo? E o cachorro… qual a origem daquele maldito cachorro?! Ora, o senhor Matt-sei-lá-o-quê preocupou-se em responder todas essas questões e ainda outras. Se deu certo ou não, é melhor você assistir e julgar por si mesmo. Talvez essa foi a decisão mais ousada do diretor, pois se por um lado o filme deixa intacta a obra de Carpenter, por outro lado não acrescenta nada de novo ao cenário e isso frustra um pouco o espectador. Mas, cá pra nós, o lance de terminar o filme exatamente onde o outro começa, particularmente achei formidável (mas a crítica especializada detestou…). Vários sites e blogs de filmes do gênero deram excelentes notas para The Thing – 2011 e todo mundo que assistiu, de forma unânime, elogiou a qualidade espetacular dos efeitos visuais do filme, sobretudo a Coisa em si. Mas, pra provocar expectativa e terror, nem sequer foram liberadas fotos das criaturas. Procura aí no Google, mas você não vai achar nada. O jeito é assistir pra conferir o visual aterrorizante do monstro.

Bom, duvido que um RPGista que se preze assista esse filme e não pense em adaptar a Coisa para suas aventuras. Por isso, eis aqui o Vila do RPG, mais uma vez dando uma de macaco gordo e quebrando o galho dos amantes do nosso hobby. Colocamos a mão na massa pra facilitar a sua vida e trazemos pra você A Coisa. O Sistema usado foi o GURPS, mas com a informação abaixo é fácil adaptar para M&M ou Daemon.

O QUE É A COISA?

1. CENÁRIO

De cara há três cenários possíveis para uma aventura envolvendo A Coisa.

Horror: Esse é o mesmo cenário dos filmes. Aqui os jogadores interpretam grupos de cientistas na Antártica que de alguma forma têm envolvimento com a criatura no gelo. Personagens podem ser criados dentro do padrão 150ptos. E provavelmente terão pouco ou nenhum conhecimento sobre combate. Embora seja possível formar um time de combatentes pra lutar contra a criatura, a exemplo do que acontece do jogo desenvolvido para PC e PS2. Esse gênero cai bem para GURPS e essa adaptação foi feita tendo ele em vista.  Os filmes deixam vários ganchos para esse tipo de cenário:

  • Os jogadores podem ser um grupo de resgate que vai à base americana e encontram tudo destruído. Nessa hipótese MacReady pode ter morrido de frio ou por outro motivo qualquer ou estar vivo e ajudar os personagens de alguma forma.
  • A doutora Kate Lloyd chega à outra base (pode até ser a base brasileira). E os jogadores têm de investigar as loucuras das quais ela fala.
  • Um grupo de mercenários ou agentes secretos é enviado para localizar e investigar o desaparecimento do Dr. Sander Halvorson.
  • Existe um HQ prequel, muito bom de verdade, escrito pelo Steve Niles e desenhado pelo Patric Reynolds que traz uma aventura envolvendo A Coisa no tempo dos vikings. Excelente material de campanha e, por incrível que pareça, publicado gratuitamente pela Dark Horse. Clique AQUI pra ler esse prequel (em inglês). Aliás, vale comentar que tem muitos outros títulos espetaculares e gratuitos no site da Dark Horse, só pra citar: Dungeon Siege e Baltimore, este último do grande Mike Mignola.

Apocalipse: Nesse cenário, podemos dizer de forma clara que “deu merda mah!” e A Coisa chegou à civilização. Remetendo aos gêneros clássicos de apocalipse zumbi/alien nesse cenário os personagens são pessoas comuns no meio de um mundo devastado pela Coisa (dá até pra imaginar o sistema do Terra Devastada em ação). No filme de 82, o Dr. Blair, auxiliado pelo computador da base, calcula que se A Coisa chegasse à civilização ela dizimaria o mundo em 27.000 horas, pouquinho mais de 03 anos. Tive oportunidade de narrar nesse cenário e foi bastante divertido. O desespero dos primeiros dias de infestação, passando pela paranóia dentro dos grupos de resistência e alto escalões do governo até os últimos dias de vida na Terra onde apenas personagens do naipe de “Mad” Max, Robert Neville, Eli e Tallahasse conseguiriam sobreviver mais de 24 horas.

Arquivos X: Nessa hipótese a criatura também conseguiu alcançar a civilização. Porém seus planos são mais elaborados que “matar, pilhar e destruir” a raça humana. Há, nessa hipótese, algo sinistro e oculto que se esconde por trás da aparente ferocidade irracional da criatura. Aqui os jogadores seriam agentes ou pessoas comuns que dão de cara com A Coisa, ou a caçam em diferentes locais do globo. Essa criatura estaria infiltrada em altos escalões do governo e aos poucos estaria lançando seus perigosos tentáculos através de uma imensa rede de influência e poder nos bastidores no cenário político mundial, num processo de conquista lento, porém sistemático e profundo. Esse tipo de jogo pode remontar ao saudoso (pelo menos pra mim) Inimigo Natural e a filmes tipo Species. Para esse gênero passou pela minha cabeça usar o GUMSHOE do Rastro de Cthullu…

2. A COISA (754ptos)

O pouco que se sabe sobre A Coisa será descrito nas linhas abaixo. Talvez não sejam informações adequadas para jogadores, ou se for o Mestre, talvez você queira alterar uma séria das coisas descritas aqui.

É certo dizer que A Coisa é alienígena. A nave espacial encontrada no gelo em 1982 deixa isso muito claro, infelizmente a nave foi destruída e qualquer informação sobre a tecnologia ou origem específica da criatura foi perdida com ela. Porque exatamente ela veio à Terra nós não podemos dizer. O mais provável é que tenha sofrido dano em sua nave e tenha feito um pouso forçado aqui na esperança de conseguir efetuar os reparos, mas que numa tentativa de deixar a nave acabou presa no gelo. Nessa hipótese fica evidente que com a destruição do seu transporte ela tenha ficado presa aqui definitivamente. E tenha resolvido fazer da Terra seu novo lar.

De qualquer forma sabemos que a Coisa é inteligente e sagaz (IQ 15 [100pt]). Muito capaz de Dissimular (NH 17 [8ptos]), Persuadir (NH 15 [4ptos]), Cativar (NH 15 [4ptos]), Sugerir (NH 15 [4ptos]) e Despertar Emoções (NH 15 [4ptos]). Até onde puder vai manter-se oculta, atacando apenas quando essa for a única opção ou quando não houver o risco de ser capturada.

Acredita-se que a forma natural da criatura ainda não tenha sido vista. E muitos cientistas acreditam que ela nem mesmo tenha uma forma física real, sendo mais um tipo de vírus ou entidade microscópica com algum tipo de consciência coletiva. O fato de até agora ter sido impossível efetivamente matá-la, pois cada gota de sangue espirrado por ela pode dar origem a outra Coisa, corrobora com esse pensamento (Tolerância a Ferimentos: Difuso [100ptos]).

As duas habilidades mais impressionantes dessa entidade são, em primeiro lugar, sua capacidade de assumir a forma de qualquer ser vivo que tenha digerido, seja humano ou animal (Metamorfose: Morfismo [100ptos], Acesso: precisa matar e digerir a vítima [-0%]). Em segundo lugar, sua capacidade de duplicar-se em vários indivíduos (Duplicação 5 [175ptos] ou mais, de acordo com o Mestre), cada um deles totalmente independente entre si, criaturas totalmente funcionais (Ampliação Ferimento Único +20% [+35ptos]).

Quando duplica um indivíduo a Coisa procura aproveitar ao máximo a vantagem estratégica dessa ação. Tanto quanto possível vai manter-se oculta, aos poucos tentando assimilar e assumir o lugar de outros integrantes do grupo. Todavia, se for descoberta, irá manifestar-se numa forma Horrenda (-24ptos) capaz de provocar verdadeiras ondas de pânico e medo em quem a vir (Terror [30ptos]). Em sua forma brutal a Coisa não é muito mais forte ou rápida que um ser humano médio (ST 13 [30ptos]; DX 12 [40ptos]) ou fisiologicamente mais resistente (HT 12 [20ptos]), no entanto, ela é capaz de resistir a incríveis punições físicas, seja por conta de sua constituição amorfa (veja acima Tolerância a Ferimentos: Difuso) ou a sua biologia alienígena (Pontos de Vida Extra x20 [40ptos]). De qualquer modo o fogo é a melhor arma contra a criatura, pois consegue agir bem contra sua estrutura difusa, além de ser particularmente mortal contra ela (Vulnerabilidade x2: Comum[-30ptos]). Em combate a Coisa irá atacar (Ataque Inato NH 15 [8ptos]) com suas Garras (Pontudas [8ptos]), Dentes (Afiados GdP-1 [2ptos]) e Tentáculos (Golpeador Perfurante: Comprido +100% [16ptos]), além de ser capaz de projetar vários Membros Extras (Braços Adicionais x4: Compridos +100% [80ptos].

Um recurso maneiro é deixar um dos jogadores SER o alien, pelo menos até os outros descobrirem quem ele é e ele ter que virar bicho. Sabe o clima daquelas partidas maneiras dos boardgames Werewolves ou Máfia? Pois então, sacou? Fica muito divertido! Bom, por hoje é isso! Boa caçada guerreiros.

Imiril Pegrande

Fã declarado de “filmes ruins”!

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7 comentários sobre “The Thing: Adaptação para GURPS

  1. F.O.D.A!

    Como falei com o Imiril pelo msn, não há adaptação que ele faça que não me dê vontade de sair jogando…

    Mas, sempre fico só com a água na boca, sem grupo pra saborear estas adaptações!

  2. bem legal, acho q talvez um dia aproveite essa adaptação. Seria uma boa para estrear o meu gurps. mas enfim, tenho outras campanhas rolando atualmente, entao vai demroar ^^ mas vlw a iniciativa.

  3. Vlw pela força Thiago!

    Pois é Odmir… eu tb se fosse jogar tudo quanto tenho vontade ia acabar num manicômio. kkkk

    Vlw aew pelo apoio camaradas.
    Abraço

  4. Imiril, parabéns pelo post!!!, Eu lembro quando era mais novo de ter assistido “A Coisa” , junto com mais dois filmes de horror, que sempre queria assistir “Quando chega a escuridão” e “Pague para entrar, reze para sair”…

    Lendo da uma vontade de assistir novamente e de jogar também, apesar de não narrar Gurps, as ideias escritas aqui facilmente podem ser adaptadas para o Storyteller.^^.

    1. Vlw Rodrigo. De fato esses dois filmes são muito bons. E vc tem razão, seria fácil rolar uma mesa com o sistema storyteller ou storytelling.

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